Literatura Portuguesa · 10.ª–12.ª classe

Qual é a análise do soneto «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»?

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Resposta curta

No soneto «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», Camões medita sobre a mudança universal: tudo se transforma, no mundo e no próprio eu. Mas a mudança não trouxe o bem esperado: do mal ficam as mágoas, do bem só saudades. No fim, o poeta nota que até a maneira de mudar já não é a de antes.

Contexto e estrutura

O texto pertence à lírica de Camões e é um soneto em decassílabos. O tema da mudança liga-se ao do desconcerto do mundo: a ordem que se esperava não se cumpre.

ParteVersosRimaIdeia principal
1.º quarteto1–4abbatudo muda: tempos, vontades, o ser, a confiança; o mundo «é composto de mudança»
2.º quarteto5–8abbaas novidades contrariam a esperança; do mal ficam mágoas, do bem saudades
1.º terceto9–11cdco tempo cobre o chão de verde (natureza renova-se) e converte em choro o «doce canto» do poeta
2.º terceto12–14dcdhá ainda outra mudança, «de mor espanto»: já não se muda como antes

Ideias a reter, estrofe a estrofe

  • 1.º quarteto: enumeração de realidades que mudam (os tempos, as vontades, o ser, a confiança). A repetição do verbo «mudar» reforça a ideia de movimento constante. O último verso generaliza: «todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades».
  • 2.º quarteto: as mudanças trazem «novidades» que são «diferentes em tudo da esperança». Há memória: do mal, as mágoas; do bem, as saudades. Ou seja, o presente é pior do que se esperava e o passado só pesa.
  • 1.º terceto: contraste entre a natureza cíclica (o chão, antes coberto de neve, agora de verde manto) e o eu, em quem a alegria do «doce canto» se converte em choro. A natureza renova-se; o poeta, não.
  • 2.º terceto: o poeta acrescenta que, além de mudar todos os dias, o mundo faz «outra mudança de mor espanto» e já não muda como «soía» (como costumava). A leitura habitual é que a mudança deixou de seguir o curso esperado, o que torna a experiência mais desconcertante.

Recursos de estilo

  • Repetição de «mudar» e de formas da mesma família: realça o tema.
  • Enumeração de realidades que mudam.
  • Antítese: mal/bem, neve fria/verde manto, choro/doce canto.
  • Metáfora: «O tempo cobre o chão de verde manto», onde «manto» é a vegetação.
  • Contraste entre natureza e eu lírico: a natureza muda e regressa; o eu muda e perde.

Método para comentar o soneto

  1. Diga o tema (a mudança e o desengano).
  2. Indique estrutura externa e interna (como na tabela).
  3. Mostre o contraste natureza / eu.
  4. Identifique recursos e o seu efeito.
  5. Termine com a ligação ao desconcerto do mundo.

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — Estrutura externa

Enunciado: Caracterize a estrutura externa do soneto.

Resolução:

  1. O poema tem 14 versos: 4 + 4 + 3 + 3.
  2. Rima dos quartetos: vontades, confiança, mudança, qualidades (abba); novidades, esperança, lembrança, saudades (abba).
  3. Rima dos tercetos: manto, fria, canto, dia, espanto, soía (cdc dcd).
  4. Os versos são decassílabos.

Resposta: soneto com rima abba abba cdc dcd, em decassílabos. Verificação: em cada quarteto, os versos 1 e 4 rimam entre si, tal como 2 e 3.

Exemplo 2 — O sentido do 2.º quarteto

Enunciado: O que significa dizer que «do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem, se algum houve, as saudades»?

Resolução:

  1. O poeta olha para o passado: o mal vivido deixou mágoas que ainda se sentem.
  2. O bem, «se algum houve», deixou apenas saudades, ou seja, está perdido.
  3. A expressão «se algum houve» sugere que o bem foi pouco ou duvidoso.
  4. Conclusão: a memória só traz dor, seja do mal que se viveu, seja do bem que se perdeu.

Resposta: a lembrança do passado causa sempre sofrimento: mágoa pelo mal e saudade do bem perdido. Verificação: os dois lados da oposição (mal/bem) terminam em sentimentos dolorosos.

Exemplo 3 — Contraste natureza e eu

Enunciado: Que contraste se estabelece no primeiro terceto?

Resolução:

  1. A natureza: o tempo cobre de verde o chão que já foi coberto de neve fria. Há renovação.
  2. O eu: o «doce canto» converte-se em choro. Há perda sem retorno.
  3. Os dois movimentos são paralelos mas de sinal contrário.

Resposta: a natureza passa do inverno à primavera, enquanto o eu passa da alegria à tristeza; o poeta não tem renovação. Verificação: a frase «em mim converte em choro o doce canto» marca o contraste («em mim»).

Exemplo 4 — Nível de exame: o último terceto

Enunciado: Explique o sentido dos versos «Outra mudança faz de mor espanto: / Que não se muda já como soía».

Resolução:

  1. «Mor» significa maior; «soía» significa costumava.
  2. O poeta diz que há uma mudança que o espanta mais do que as outras.
  3. Essa mudança é que o mundo já não muda como antigamente. Pode ler-se como a perda da regularidade que dava sentido à mudança (a natureza cíclica) ou como a mudança que deixou de levar ao bem esperado.
  4. O efeito é de desconcerto: nem a mudança é previsível.

Resposta: o último terceto acrescenta uma mudança mais espantosa: até o modo de mudar do mundo mudou, o que reforça o desengano do eu. Verificação: o sentido liga-se à ideia inicial («Mudam-se os tempos») e leva-a ao extremo.

Erros frequentes

  • Dizer que o poema celebra a mudança. A mudança é vivida como perda e desengano.
  • Ignorar o contraste com a natureza. O primeiro terceto depende dele.
  • Traduzir «soía» como «sabia». Significa «costumava».
  • Resumir só os dois primeiros versos. O sentido vai-se complicando até ao final.
  • Falar de «Renascimento otimista». O tom aqui é de desilusão.
  • Esquecer a rima nos tercetos. São cdc dcd.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Qual é a rima dos quartetos do soneto?

Ver solução

abba abba. Primeiro quarteto: vontades (a), confiança (b), mudança (b), qualidades (a). Segundo: novidades (a), esperança (b), lembrança (b), saudades (a).

2Exercício 2

Retire do texto uma expressão que mostre que a mudança é universal.

Ver solução

«Todo o mundo é composto de mudança». Mostra que a mudança afeta tudo o que existe. Também serve a enumeração do 1.º quarteto («mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança»).

3Exercício 3

Diga o que significam «mor» e «soía» nos versos finais.

Ver dica

Pense nas palavras «maior» e «costumava».

Ver solução

Mor é forma antiga de «maior» e soía é «costumava» (do verbo soer). Os versos dizem: «Outra mudança faz de maior espanto: que já não se muda como costumava.»

4Exercício 4

Explique a oposição entre o «verde manto» e o «choro» no primeiro terceto.

Ver solução

O «verde manto» representa a renovação da natureza; o «choro» mostra que o eu não se renova: a sua alegria («doce canto») transformou-se em tristeza. A oposição realça o isolamento e o desengano do poeta.

5Exercício 5

Escreva um parágrafo que relacione este soneto com o desconcerto do mundo.

Ver solução

Resposta-modelo: O soneto mostra que a mudança universal não traz o bem esperado: as novidades são «diferentes em tudo da esperança», o mal deixa mágoas e o bem só saudades. Contra a lógica de um mundo ordenado, a mudança afasta o poeta da felicidade, e no último terceto nem o ritmo da mudança é o de antes. Esta falta de ordem e de justiça no curso do tempo é uma forma do desconcerto do mundo.

Perguntas frequentes

Qual é o tema principal?

A mudança (do mundo e do eu) e o desengano que ela provoca, porque o presente não corresponde à esperança e a memória traz dor.

Porque se diz que o soneto fala do desconcerto?

Porque a mudança não segue uma ordem justa ou previsível: não traz o bem que se esperava e, no fim, deixa até de se fazer como costumava.

Qual é a diferença para o soneto «Amor é fogo que arde sem se ver»?

Aquele define o amor por paradoxos; este reflete sobre a mudança e o tempo. Ambos têm tom de desengano, mas o tema e os recursos centrais diferem.

O que é preciso saber de vocabulário?

As formas antigas «mor» (maior) e «soía» (costumava), e o sentido de «manto» como metáfora da vegetação. Confirme na edição do seu manual se há notas diferentes.

Resumo

  • Tema: a mudança universal e o desengano do eu lírico.
  • Estrutura: 14 versos, decassílabos, rima abba abba cdc dcd.
  • Contraste: natureza que se renova versus eu que perde.
  • Final: «outra mudança de mor espanto», já não se muda como se costumava.
  • Ligação ao desconcerto do mundo.

Onde aprofundar

  • O manual de Literatura Portuguesa da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Uma edição anotada das Rimas de Camões.
  • Estudos de introdução à lírica camoniana indicados no seu programa ou pelo professor.

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