Filosofia · 10.ª–12.ª classe
O que é a vida e a morte de Sócrates?
Resposta curta
Sócrates (c. 470–399 a.C.) foi um filósofo ateniense que não deixou escritos e dedicou a vida a interrogar os concidadãos sobre a virtude, a justiça e o saber, através do diálogo. Acusado de não reconhecer os deuses da cidade e de corromper os jovens, foi julgado em Atenas, condenado à morte e bebeu cicuta em 399 a.C., recusando fugir.
Contexto e fontes
Atenas, no século V a.C., era uma cidade democrática, rica em debate público, mas também marcada pela guerra entre Atenas e Esparta (a Guerra do Peloponeso) e pela instabilidade política. Foi neste ambiente que Sócrates viveu.
Sócrates nunca escreveu. O que sabemos dele vem de outros autores, que o apresentam de modos diferentes:
| Fonte | Quem é | O que oferece |
|---|---|---|
| Platão | discípulo | diálogos como a Apologia de Sócrates, o Críton e o Fédon, sobre o julgamento e a morte |
| Xenofonte | contemporâneo e discípulo | memórias e uma versão mais prática e simples |
| Aristófanes | comediógrafo | a comédia As Nuvens, onde Sócrates é satirizado |
| Aristóteles | filósofo posterior | comentários sobre o seu método e as suas ideias |
Esta diversidade de fontes cria o chamado «problema socrático»: os retratos não coincidem inteiramente, e há dificuldade em separar o Sócrates histórico do Sócrates literário de Platão.
Dados biográficos geralmente aceites
- Nasceu em Atenas, por volta de 470 a.C. Segundo a tradição, o pai, Sofronisco, era escultor e a mãe, Fenareta, era parteira.
- Foi cidadão-soldado, como era comum em Atenas, e participou em campanhas militares.
- Não abriu escola nem cobrava ensino: conversava na praça pública (a ágora), nos ginásios e em casas de amigos.
- Casou com Xantipa e teve filhos.
- Morreu em Atenas em 399 a.C., condenado por um tribunal de cidadãos.
O método socrático
O ponto central da sua vida foi o exame das opiniões dos outros. O método tem dois momentos:
- Ironia: Sócrates faz perguntas fingindo nada saber, levando o interlocutor a revelar contradições nas suas respostas.
- Maiêutica (arte de «dar à luz»): ajuda o interlocutor a encontrar, por si, definições mais rigorosas, como a parteira ajuda a nascer a criança.
A tradição atribui-lhe a atitude de reconhecer a própria ignorância, resumida na frase «só sei que nada sei». Sócrates acreditava que o primeiro passo para o saber é admitir que não se sabe.
O julgamento e a morte
As acusações, apresentadas por cidadãos atenienses (nomeadamente Meleto, apoiado por Ânito e Lícon), foram duas: impiedade (não reconhecer os deuses da cidade e introduzir novas divindades) e corrupção da juventude.
Segundo a Apologia de Platão, Sócrates defendeu-se afirmando que cumpria uma missão: interrogar os cidadãos para os levar a cuidar da alma e da virtude. Foi declarado culpado e, na fase seguinte do processo, condenado à morte. Esteve preso algum tempo, e a tradição diz que amigos propuseram a fuga. No Críton, Platão mostra-o a recusar, por considerar que desobedecer às leis da cidade em que viveu seria injusto. Morreu bebendo cicuta, um veneno vegetal, como relata o Fédon, falando com os amigos sobre a alma até ao fim.
Nota
Os pormenores da defesa e das últimas palavras vêm de Platão, que é também um autor com ideias próprias. Por isso se deve distinguir o que é história e o que é interpretação.
Exemplos resolvidos
Exemplo 1 — Identificar o método
Enunciado: Um professor pergunta: «O que é a coragem?» Um aluno responde: «É não fugir da batalha.» O professor replica: «E o soldado que recua para atacar melhor é cobarde?» Que momento do método socrático é este?
Resolução:
- O aluno deu uma definição que parecia suficiente.
- O professor mostra um caso que a contradiz (recuar sem ser cobarde).
- O aluno vê que a definição é curta demais e é levado a procurar outra mais completa.
Resposta: é o momento do exame crítico (ironia), que revela contradições, preparando a maiêutica. Verificação: o objetivo não é derrotar o aluno, mas ajudá-lo a chegar a uma definição melhor.
Exemplo 2 — Distinguir acusação e razões
Enunciado: Quais foram as acusações contra Sócrates e que razões se costumam apontar para o processo?
Resolução:
- Acusações formais: não reconhecer os deuses da cidade e corromper os jovens.
- Razões frequentemente apontadas: o seu questionamento incomodava cidadãos influentes, que viam as suas certezas postas em causa.
- O ambiente político pós-guerra e a ligação de alguns discípulos a figuras mal vistas na cidade contribuíram para a desconfiança, segundo muitos historiadores.
Resposta: a acusação foi de impiedade e corrupção da juventude; as razões profundas são debatidas. Verificação: distinguiu-se o que consta do processo (acusações) do que são interpretações (motivos).
Exemplo 3 — Aplicar o caso de Sócrates (nível de exame)
Enunciado: No Críton, Sócrates recusa fugir da prisão, apesar de a condenação lhe parecer injusta. Explique o argumento e uma objeção possível.
Resolução:
- Argumento: Sócrates viveu toda a vida em Atenas, beneficiou das suas leis e aceitou-as. Fugir seria desrespeitar uma cidade a que se vinculara.
- Conclusão do argumento: é pior cometer uma injustiça do que sofrê-la; logo, não deve responder à injustiça com outra.
- Objeção: se a sentença é injusta, não haveria razão para obedecer-lhe, e muitos pensadores defendem a desobediência a leis injustas.
Resposta: Sócrates defende a fidelidade às leis; a objeção apela à resistência a decisões injustas. Verificação: o argumento e a objeção apoiam-se em princípios diferentes (lealdade à lei contra justiça do caso).
Importância e legado
- Início da filosofia moral: deslocou o interesse da natureza para o ser humano, a virtude e a vida boa.
- Método do diálogo: influencia o ensino por perguntas, o debate e o pensamento crítico.
- Discípulos: Platão desenvolveu o seu pensamento, e outras escolas (cínicos, cirenaicos, estoicos) invocaram-no.
- Símbolo: é lembrado como exemplo de coerência entre o que se pensa e o que se faz.
Erros frequentes
- Dizer que Sócrates escreveu livros. Não escreveu; conhecemo-lo por Platão, Xenofonte e outros.
- Afirmar que foi condenado por «dizer a verdade» sem mais. As acusações formais foram impiedade e corrupção da juventude.
- Confundir Sócrates com Platão. Platão é o discípulo que o retrata; as ideias de um e de outro nem sempre coincidem.
- Dizer que morreu por espada ou enforcado. Bebeu cicuta.
- Pensar que «só sei que nada sei» é falta de saber. É consciência dos limites do saber, ponto de partida da busca.
- Tratar o julgamento como um tribunal moderno. Foi um tribunal de cidadãos, com regras próprias da Atenas da época.
Exercícios propostos
1Exercício 1
Em que século e cidade viveu Sócrates e como morreu?
Ver solução
Viveu em Atenas, no século V a.C. (c. 470–399 a.C.). Morreu condenado, ao beber cicuta.
2Exercício 2
Diga, em duas frases, em que consiste a maiêutica.
Ver solução
É o método pelo qual Sócrates, com perguntas, ajuda o interlocutor a «dar à luz» as suas próprias ideias, tal como a mãe, parteira, ajudava ao nascimento. O saber não é transmitido de fora, mas descoberto pelo diálogo.
3Exercício 3
Indique duas fontes para conhecer Sócrates e uma dificuldade que daí resulta.
Ver solução
Por exemplo, Platão e Xenofonte. Como Sócrates não deixou escritos, e as fontes diferem, é difícil distinguir o Sócrates histórico do retrato de cada autor («problema socrático»).
4Exercício 4
Que acusações pesaram sobre Sócrates e como se defendeu, segundo a Apologia?
Ver dica
Pense na «missão» de que fala Sócrates.
Ver solução
Foi acusado de impiedade (não reconhecer os deuses da cidade) e de corromper a juventude. Na Apologia, defende que cumpria uma missão: examinar os cidadãos e levá-los a cuidar da alma e da virtude, e que isso beneficiava a cidade.
5Exercício 5
Explique por que razão Sócrates recusou fugir da prisão e dê a sua opinião fundamentada sobre esse argumento.
Ver dica
Distinga a explicação (que é do texto) da opinião (que é sua).
Ver solução
No Críton, Sócrates recusa fugir porque viveu sob as leis de Atenas e aceitou-as; desrespeitá-las seria cometer outra injustiça, e é pior fazer o mal do que sofrê-lo. Uma opinião fundamentada pode concordar (a coerência com os princípios dá valor ao exemplo) ou discordar (uma decisão injusta pode justificar a desobediência), desde que apresente razões claras.
Perguntas frequentes
Porque é que Sócrates não escreveu nada?
Segundo a tradição, valorizava o diálogo vivo em vez do texto escrito, porque quem pergunta pode adaptar-se ao interlocutor. O que sabemos vem de discípulos e outros autores.
Sócrates era mesmo ateu?
Não há evidência segura disso. Nas fontes, fala de uma voz interior (o seu «daimónion») e da missão que atribui ao deus de Delfos. A acusação de impiedade foi a que o tribunal considerou, mas o seu significado exato é debatido.
O que significa «só sei que nada sei»?
Significa reconhecer a própria ignorância como ponto de partida do saber. A formulação exata é uma frase da tradição, que resume a atitude que Platão lhe atribui na Apologia.
Que diferença há entre Sócrates e os sofistas?
Os sofistas ensinavam, geralmente a troco de pagamento, a argumentar e a persuadir. Sócrates não cobrava, e procurava, pelo diálogo, a verdade e a virtude, mais do que a vitória no debate.
Resumo
- Sócrates (c. 470–399 a.C.) viveu em Atenas e não deixou escritos.
- Conhecemo-lo por Platão, Xenofonte, Aristófanes e outros: é o «problema socrático».
- O seu método combina ironia e maiêutica, num diálogo que examina as opiniões.
- Foi acusado de impiedade e corrupção da juventude, condenado e morreu ao beber cicuta, em 399 a.C.
- Recusou fugir da prisão, como mostra o Críton, e tornou-se símbolo de coerência e de busca da virtude.
Onde aprofundar
- O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
- A Apologia de Sócrates, o Críton e o Fédon, de Platão, em tradução portuguesa.
- A Stanford Encyclopedia of Philosophy e a Internet Encyclopedia of Philosophy (em inglês), entradas sobre Sócrates.
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