Literatura Portuguesa · 10.ª–12.ª classe

O que é a estrutura externa de Os Lusíadas?

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Resposta curta

A estrutura externa de Os Lusíadas é a organização formal e visível do poema: 10 cantos, 1 102 estâncias em oitava rima (rima ABABABCC), com versos decassílabos heroicos, num total de 8 816 versos. Divide-se em cinco partes: proposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo.

O que é a estrutura externa

Quando se estuda uma obra literária, distingue-se o que ela diz (estrutura interna: planos, assuntos, episódios) do modo como está construída por fora (estrutura externa: divisão em partes, forma das estrofes, rima e métrica). A estrutura externa pode ser verificada diretamente no texto, contando cantos, estrofes e versos e identificando as partes.

Os Lusíadas, de Luís de Camões, foi publicado em 1572 e é uma epopeia: um poema longo, em verso, que canta feitos heroicos de uma coletividade. Neste caso, o herói é o povo português, representado sobretudo pela viagem de Vasco da Gama à Índia. Camões segue o modelo da epopeia clássica (Homero, Virgílio) e, por isso, a estrutura externa respeita convenções antigas.

Dados formais que deve saber

ElementoEm Os Lusíadas
Cantos10
Estrofes (estâncias)1 102, todas oitavas
Versos por estrofe8
Total de versos8 816
Versodecassílabo heroico (10 sílabas métricas, com acentos nas 6.ª e 10.ª sílabas)
RimaABABABCC: seis versos de rima cruzada e dois de rima emparelhada
Tipo de rimaconsoante (a partir da vogal tónica, as sílabas finais são iguais)

A oitava rima é, por isso, chamada oitava real ou oitava heroica. O número de estâncias varia de canto para canto: o canto X é o mais longo, com 156 estâncias, e o canto VII o mais curto, com 87.

As cinco partes do poema

A divisão em partes é independente da divisão em cantos. Segue o modelo clássico:

ParteLocalizaçãoO que acontece
Proposiçãocanto I, estâncias 1 a 3O poeta anuncia o assunto: os feitos dos portugueses que navegaram para lá de qualquer limite conhecido, os reis que alargaram o império e a fé, e outros heróis que se tornaram dignos de fama.
Invocaçãocanto I, estâncias 4 e 5Pede inspiração às Tágides, ninfas do rio Tejo, para um estilo elevado, "alto e sublimado".
Dedicatóriacanto I, estâncias 6 a 18Dirige o poema ao rei D. Sebastião, a quem elogia e de quem espera proteção e ação.
Narraçãocanto I, estância 19, até ao canto X, estância 144Conta a viagem de Vasco da Gama e os episódios que a rodeiam. Começa in medias res: a armada já navega no oceano Índico.
Epílogocanto X, estâncias 145 a 156O poeta, cansado e desiludido, volta a dirigir-se ao rei e dá conselhos sobre a governação.

Repare que a narração começa já com a viagem a decorrer; os acontecimentos anteriores, como a partida de Lisboa, são recordados mais tarde pela voz de Vasco da Gama.

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — Contar versos e estâncias

Enunciado: Sabendo que o poema tem 1 102 estâncias de 8 versos, calcule o número total de versos. Calcule também quantos versos tem o canto I, que tem 106 estâncias.

Resolução:

  1. Total: 1 102 × 8 = 8 816 versos.
  2. Canto I: 106 × 8 = 848 versos.

Resposta: 8 816 versos no poema e 848 no canto I. Verificação: 8 816 ÷ 8 = 1 102 e 848 ÷ 8 = 106.

Exemplo 2 — Esquema rimático da primeira estância

Enunciado: Identifique o esquema de rima da primeira estância:

As armas e os barões assinalados, / Que da ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana, / Em perigos e guerras esforçados / Mais do que prometia a força humana, / E entre gente remota edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram;

Resolução:

  1. Os versos 1, 3 e 5 terminam em -ados (assinalados, navegados, esforçados): rima A.
  2. Os versos 2, 4 e 6 terminam em -ana (Lusitana, Taprobana, humana): rima B.
  3. Os versos 7 e 8 terminam em -aram (edificaram, sublimaram): rima C.

Resposta: ABABABCC. Verificação: são oito versos e todos entram num dos três grupos de rima, o que confirma a oitava rima.

Exemplo 3 — Identificar a parte do poema

Enunciado: A que parte pertence cada passagem? (a) "Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta" (canto I, 3); (b) "E vós, Tágides minhas, pois criado / Tendes em mim um novo engenho ardente"; (c) um poeta que, no fim do poema, se diz com a voz "enrouquecida".

Resolução:

  1. Em (a), o poeta diz que o seu assunto é superior ao dos poemas antigos: está a propor o tema.
  2. Em (b), dirige-se às ninfas do Tejo para lhes pedir inspiração: é a invocação.
  3. Em (c), o poeta fala de si e despede-se, no final do canto X: é o epílogo.

Resposta: (a) proposição, (b) invocação, (c) epílogo. Verificação: a proposição anuncia, a invocação pede, o epílogo conclui, e cada passagem cumpre uma só destas funções.

Exemplo 4 — Nível de exame: peso da narração

Enunciado: Sabendo que a proposição, a invocação e a dedicatória ocupam as estâncias 1 a 18 do canto I e o epílogo as estâncias 145 a 156 do canto X, calcule quantas estâncias tem a narração e que percentagem do poema representa.

Resolução:

  1. Estâncias das três primeiras partes: 18.
  2. Estâncias do epílogo: 156 − 145 + 1 = 12.
  3. Narração: 1 102 − 18 − 12 = 1 072 estâncias.
  4. Percentagem: 1 072 ÷ 1 102 ≈ 0,973, ou seja, cerca de 97 %.

Resposta: 1 072 estâncias, perto de 97 % do poema. Verificação: 18 + 1 072 + 12 = 1 102.

Erros frequentes

  • Confundir estrutura externa com estrutura interna. A externa trata de partes, cantos, estrofes, rima e métrica; os planos da viagem, da mitologia, da história e das reflexões pertencem à interna.
  • Dizer que o poema tem 12 cantos. Os 12 cantos são da Eneida, de Virgílio; Os Lusíadas tem 10.
  • Trocar a oitava por sextilha ou por quadra. A estância camoniana tem 8 versos.
  • Esquecer o epílogo e dizer que o poema acaba com a narração. As últimas 12 estâncias são do poeta.
  • Pensar que a narração começa em Lisboa. Começa in medias res, com a armada no Índico.
  • Confundir decassílabo com alexandrino. O verso camoniano tem 10 sílabas métricas, não 12.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Quantos cantos e quantas estâncias tem Os Lusíadas? Qual é o esquema rimático de cada estância?

Ver solução

Tem 10 cantos e 1 102 estâncias. Cada estância é uma oitava com rima ABABABCC.

2Exercício 2

Calcule o número de versos do canto X, que tem 156 estâncias.

Ver solução

156 × 8 = 1 248 versos.

3Exercício 3

Diga a que parte do poema pertence um excerto em que o poeta pede às ninfas do Tejo um estilo elevado e justifique.

Ver dica

Quem se invoca e para quê?

Ver solução

Pertence à invocação (canto I, estâncias 4 e 5). O poeta dirige-se às Tágides, ninfas do Tejo, e pede-lhes inspiração, o que é a função típica da invocação numa epopeia.

4Exercício 4

Explique o que significa dizer que a narração começa in medias res e indique onde isso se vê no poema.

Ver solução

Significa que a ação é iniciada no meio dos acontecimentos, e não no princípio. Em Os Lusíadas, a narração, a partir do canto I, mostra a armada de Vasco da Gama já no oceano Índico; a partida de Lisboa e a história de Portugal são contadas depois, pelo próprio Vasco da Gama, ao rei de Melinde.

5Exercício 5

Explique por que razão um estudante pode afirmar que a estrutura externa é a mais fácil de verificar. Dê dois elementos que pode confirmar apenas contando ou lendo versos.

Ver solução

Porque se pode comprovar diretamente no texto, sem interpretação. Exemplos: o número de versos de uma estância (8) e o esquema de rima (ABABABCC); também o facto de o poema ter 10 cantos e de a primeira parte (proposição) ocupar as estâncias 1 a 3 do canto I.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre estrutura externa e estrutura interna?

A externa descreve a forma: cantos, estâncias, versos, rima e as cinco partes. A interna descreve o conteúdo: os quatro planos (viagem, mitologia, história de Portugal e reflexões do poeta) e a sua articulação.

O que é uma epopeia e porque é que Camões segue esse modelo?

É um poema narrativo longo sobre feitos grandiosos de um povo. Camões usa as partes obrigatórias do modelo clássico para mostrar que os feitos portugueses merecem o mesmo estatuto dos heróis de Homero e de Virgílio.

Como se contam as sílabas de um decassílabo?

Conta-se até à última sílaba tónica do verso, ignorando as átonas que se seguem, e juntam-se numa só sílaba as vogais que se ligam entre palavras. No decassílabo heroico, os acentos fortes recaem na 6.ª e na 10.ª sílabas.

Isto é mesmo pedido nos exames?

É frequente pedir que se identifique a parte do poema a que pertence um excerto, bem como a métrica e a rima. Confirme no programa da sua classe a extensão exigida.

Resumo

  • Os Lusíadas (1572) é uma epopeia de Camões com 10 cantos e 1 102 estâncias.
  • Cada estância é uma oitava com rima ABABABCC e versos decassílabos heroicos; são 8 816 versos.
  • As cinco partes: proposição, invocação, dedicatória, narração, epílogo.
  • A narração ocupa quase todo o poema (do canto I, 19, ao canto X, 144) e começa in medias res.
  • Não confunda externa (forma) com interna (conteúdo e planos).

Onde aprofundar

  • O manual de Português ou de Literatura da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Uma edição anotada de Os Lusíadas, de Luís de Vaz de Camões, com notas sobre métrica e estrutura.
  • A Eneida, de Virgílio, em tradução portuguesa, para comparar a divisão do poema com o modelo clássico.

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