Filosofia · 10.ª–12.ª classe

Como testar a validade de um argumento?

  • 8 min de leitura
  • 4 exemplos resolvidos
  • 5 exercícios com solução
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Resposta curta

Um argumento dedutivo é válido quando é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Método: 1) identificar premissas e conclusão; 2) supor as premissas verdadeiras; 3) ver se a conclusão tem de ser verdadeira (procurando um contraexemplo). Validade não é o mesmo que verdade. Exemplo: «Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal» é válido.

Quando se aplica

Em Lógica e em argumentação, um argumento é um conjunto de afirmações em que algumas (as premissas) pretendem apoiar outra (a conclusão). Testar a validade serve para saber se o raciocínio é bom, independentemente de as premissas serem verdadeiras. Usa-se em Filosofia, Matemática, Direito, debates e em qualquer situação em que se queira avaliar se uma conclusão se segue realmente do que foi dito.

Conceitos essenciais

  • Premissa: afirmação que serve de ponto de partida do argumento.
  • Conclusão: afirmação que se pretende justificar.
  • Argumento dedutivo: pretende que a conclusão decorra necessariamente das premissas.
  • Válido / inválido: propriedade da forma do argumento (a ligação entre premissas e conclusão). Um argumento é válido se, supondo as premissas verdadeiras, a conclusão é necessariamente verdadeira.
  • Verdadeiro / falso: propriedade das afirmações. Os argumentos não são verdadeiros nem falsos, são válidos ou inválidos.
  • Argumento sólido: argumento válido com todas as premissas verdadeiras. Só um argumento sólido garante uma conclusão verdadeira.
ValidadePremissasConclusãoExemplo
Válidotodas verdadeirasverdadeira (obrigatoriamente)Todos os angolanos são africanos; Maria é angolana; logo é africana
Válidoalguma falsapode ser falsaTodos os peixes voam; o tubarão é peixe; logo o tubarão voa
Inválidoverdadeiraspode ser falsaSe é cão, é mamífero; é mamífero; logo é cão

Método passo a passo

  1. Leia o argumento e identifique a conclusão (muitas vezes marcada por «logo», «portanto», «por conseguinte»).
  2. Liste as premissas, uma a uma.
  3. Escreva a forma do argumento, substituindo conteúdos por letras: «Todos os A são B; x é A; logo x é B.»
  4. Suponha as premissas verdadeiras (mesmo que na realidade sejam falsas): a validade só pergunta o que acontece se forem verdadeiras.
  5. Procure um contraexemplo: uma situação (ou um argumento com a mesma forma) em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.
  6. Se encontrar contraexemplo, o argumento é inválido. Se for impossível encontrar, é válido.
  7. Em lógica proposicional, pode usar uma tabela de verdade: se existir alguma linha com todas as premissas verdadeiras e a conclusão falsa, é inválido.
  8. Conclua: válido ou inválido; e, se for válido, verifique se as premissas são verdadeiras para saber se é sólido.

Formas válidas e inválidas mais comuns

NomeFormaEstado
Modus ponensSe P, então Q. P. Logo Q.válido
Modus tollensSe P, então Q. Não Q. Logo não P.válido
Silogismo hipotéticoSe P então Q. Se Q então R. Logo, se P então R.válido
Afirmação do consequenteSe P, então Q. Q. Logo P.inválido (falácia)
Negação do antecedenteSe P, então Q. Não P. Logo não Q.inválido (falácia)
Silogismo categóricoTodos os A são B. Todos os B são C. Logo, todos os A são C.válido

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — Silogismo válido

Enunciado: «Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.» É válido?

Resolução:

  1. Forma: Todos os H são M; S é H; logo S é M.
  2. Suponha as premissas verdadeiras: se todos os homens são mortais e Sócrates é um deles, então Sócrates é mortal; não há como a conclusão ser falsa.
  3. Não existe contraexemplo.

Resposta: válido (e sólido, porque as premissas são verdadeiras).

Exemplo 2 — Afirmação do consequente

Enunciado: «Se um animal é um cão, então é um mamífero. Este animal é um mamífero. Logo, é um cão.» É válido?

Resolução:

  1. Forma: Se P então Q; Q; logo P.
  2. Procure contraexemplo: o animal pode ser um gato. As premissas são verdadeiras (se é cão, é mamífero; este gato é mamífero), mas a conclusão é falsa (não é cão).

Resposta: inválido (falácia da afirmação do consequente).

Exemplo 3 — Válido, mas com premissa falsa

Enunciado: «Todos os peixes voam. O tubarão é um peixe. Logo, o tubarão voa.» É válido? E sólido?

Resolução:

  1. Forma: Todos os A são B; x é A; logo x é B. É a forma válida do Exemplo 1.
  2. Se as premissas fossem verdadeiras, a conclusão seria verdadeira: é válido.
  3. Mas a primeira premissa é falsa (nem todos os peixes voam): não é sólido.

Resposta: válido, mas não sólido. Mostra que validade não garante verdade.

Exemplo 4 — Nível de exame: tabela de verdade

Enunciado: Teste com tabela de verdade o argumento «P → Q; Q; logo P».

Resolução:

  1. Liste todas as combinações de valores de P e Q.
  2. Em cada linha, veja as premissas (P → Q e Q) e a conclusão (P).
PQP → QQ (premissa)P (conclusão)
VVVVV
VFFFV
FVVVF
FFVFF
  1. Na linha 3 (P falso, Q verdadeiro), as duas premissas são verdadeiras e a conclusão é falsa: é um contraexemplo.

Resposta: inválido. Basta uma linha com premissas verdadeiras e conclusão falsa.

Erros frequentes

  • Confundir validade com verdade. Um argumento pode ser válido com premissas falsas e inválido com conclusão verdadeira.
  • Dizer que um argumento é válido só porque a conclusão é verdadeira.
  • Dizer que um argumento é inválido só porque as premissas são falsas.
  • Aplicar as palavras «verdadeiro» e «falso» a argumentos, em vez de «válido» e «inválido».
  • Não identificar bem a conclusão (confundir premissa com conclusão).
  • Cair nas falácias formais da afirmação do consequente e da negação do antecedente.
  • Procurar o contraexemplo só no conteúdo real em vez de supor as premissas verdadeiras.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Diga se é válido: «Se chove, a rua fica molhada. A rua não está molhada. Logo, não choveu.»

Ver solução

Forma: P → Q; não Q; logo não P (modus tollens). É válido.

2Exercício 2

Diga se é válido: «Se estudo, passo no teste. Passei no teste. Logo, estudei.» Dê um contraexemplo, se existir.

Ver solução

Inválido (afirmação do consequente). Contraexemplo: posso ter passado por ter tido sorte, ou por ter estudado noutro momento; as premissas continuam a poder ser verdadeiras com conclusão falsa.

3Exercício 3

Diga se é válido e sólido: «Todos os leões são mamíferos. Todos os mamíferos têm coluna vertebral. Logo, todos os leões têm coluna vertebral.»

Ver solução

Forma: todos os A são B; todos os B são C; logo todos os A são C. É válido; como as premissas são verdadeiras, é também sólido.

4Exercício 4

Diga se é válido: «Alguns alunos são estudiosos. Alguns estudiosos são atletas. Logo, alguns alunos são atletas.»

Ver dica

Procure um caso em que os «alunos estudiosos» e os «estudiosos atletas» sejam grupos diferentes.

Ver solução

Inválido. Contraexemplo: os alunos estudiosos podem ser todos diferentes das pessoas estudiosas que são atletas (por exemplo, atletas profissionais que não são alunos). As premissas ficam verdadeiras e a conclusão falsa.

5Exercício 5

Complete: um argumento é ___ se a sua forma garante que, sendo as premissas verdadeiras, a conclusão é verdadeira; é ___ se, além disso, as premissas forem de facto verdadeiras.

Ver solução

válido; sólido.

Perguntas frequentes

Quando se usa este método?

Sempre que se avalia um argumento dedutivo: em exercícios de Lógica, em debates, em textos de opinião e em demonstrações.

Existe um método mais rápido?

Pode reconhecer formas conhecidas: modus ponens, modus tollens e silogismos categóricos são válidos; a afirmação do consequente e a negação do antecedente são inválidas. Se não reconhecer a forma, procure o contraexemplo.

Um argumento inválido tem sempre conclusão falsa?

Não. A conclusão pode ser verdadeira por acaso, mas o argumento continua a não a garantir. Um argumento inválido pode ter premissas e conclusão verdadeiras.

Qual é a diferença entre argumento dedutivo e indutivo?

No dedutivo, a conclusão decorre necessariamente das premissas (válido/inválido). No indutivo, as premissas apoiam a conclusão com maior ou menor probabilidade (forte/fraco).

Que erros são mais comuns?

Confundir validade com verdade e cair nas falácias formais. Veja "Erros frequentes".

Resumo

  • Válido: impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.
  • Contraexemplo: premissas verdadeiras e conclusão falsa ⇒ inválido.
  • Sólido = válido + premissas verdadeiras.
  • Válidos: modus ponens, modus tollens, silogismo hipotético. Inválidos: afirmação do consequente, negação do antecedente.
  • Argumentos são válidos/inválidos; afirmações são verdadeiras/falsas.

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Manuais de Lógica elementar e a Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês), entradas sobre argumento e validade.

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