Filosofia · 10.ª–12.ª classe
O que é a ética das virtudes de Aristóteles?
Resposta curta
Para Aristóteles, a vida boa é a felicidade (eudaimonia), que se alcança vivendo de acordo com a virtude. As virtudes morais são hábitos do caráter que escolhem o justo meio entre dois extremos, guiados pela razão prática (a prudência). Ser bom não é conhecer regras, mas tornar-se, pela prática, uma pessoa de bom caráter.
O que é
Aristóteles (384–322 a.C.) fundou o Liceu em Atenas. A sua obra ética principal é a Ética a Nicómaco. Nela pergunta: qual é o bem supremo da vida humana? A resposta é a felicidade, entendida não como prazer passageiro, mas como uma atividade da alma conforme à virtude, ao longo de uma vida inteira.
Chama-se ética das virtudes porque a pergunta central não é «que ações são permitidas?» mas «que tipo de pessoa devo ser?». As ações valem pelo caráter de que nascem.
Duas espécies de virtudes
| Virtudes intelectuais | Virtudes morais (do caráter) | |
|---|---|---|
| Origem | sobretudo ensino e experiência | hábito (ethos) |
| Exemplos | sabedoria teórica, prudência (phronesis) | coragem, temperança, generosidade, justiça |
| Âmbito | o pensamento | as emoções e as ações |
Ideias principais
- Finalidade: todas as ações visam um bem; o bem supremo é a felicidade.
- Função própria do ser humano: a atividade da razão. Viver bem é exercer bem a razão.
- Virtude como hábito: ficamos justos praticando ações justas, corajosos praticando ações corajosas. Uma só ação não faz a virtude (Aristóteles diz que uma andorinha não faz a primavera).
- Justo meio: a virtude situa-se entre o excesso e a falta, medido «em relação a nós», isto é, ao caso concreto.
- Prudência: a virtude intelectual que descobre, em cada situação, onde está o justo meio.
Como se aplica o justo meio
- Identifique a emoção ou situação em causa (medo, gasto de dinheiro, prazeres do corpo…).
- Identifique o excesso e a falta (os dois vícios).
- Procure o meio: a atitude adequada, na altura certa, pelo motivo certo, da maneira certa.
- Lembre que o meio não é matemático: varia com a pessoa e as circunstâncias.
Exemplos resolvidos
Exemplo 1 — A coragem
Enunciado: Identifique a virtude, o excesso e a falta no caso do medo diante do perigo.
Resolução:
- A emoção em causa é o medo.
- A falta é a cobardia (fugir de tudo o que assusta).
- O excesso é a temeridade (não temer nada, mesmo o que é realmente perigoso).
- O meio é a coragem: temer o que se deve, na medida certa, e agir de acordo.
Resposta: coragem, entre a cobardia e a temeridade. Verificação: a coragem não é ausência de medo, mas medo bem orientado pela razão.
Exemplo 2 — A generosidade no dia a dia
Enunciado: Um jovem de Luanda recebe a mesada. Um amigo pede-lhe dinheiro todas as semanas. Como analisar a situação com Aristóteles?
Resolução:
- O assunto é o uso do dinheiro. A falta é a avareza (nunca dar); o excesso é a prodigalidade (dar sem medida).
- A generosidade é o meio: dar a quem convém, quanto convém, quando convém.
- A prudência pede que se avalie a necessidade real do amigo e as posses do próprio jovem.
- Não há um valor «certo» igual para todos: dar a quem tem fome pode ser meio; dar para ostentação pode ser excesso.
Resposta: o jovem deve decidir com prudência, evitando a avareza e a prodigalidade. Verificação: o meio depende das circunstâncias, e é por isso que Aristóteles diz que é «relativo a nós».
Exemplo 3 — Nível de exame: como se adquire a virtude
Enunciado: Um aluno diz: «Basta saber o que é a justiça para ser justo». Responda segundo Aristóteles.
Resolução:
- Para Aristóteles, as virtudes morais adquirem-se pelo hábito, e não apenas pelo conhecimento teórico.
- Praticando atos justos repetidamente, a pessoa forma um caráter justo.
- O saber teórico ajuda, mas sem prática não há virtude, tal como saber as regras do futebol não faz um bom jogador.
- Além disso, a ação virtuosa exige escolher por si própria, sabendo o que se faz, e agir de modo firme.
Resposta: o aluno está errado; a virtude moral vem do hábito e da prática, orientados pela prudência. Verificação: isto distingue Aristóteles da posição de Sócrates, para quem virtude era sobretudo conhecimento.
Erros frequentes
- Pensar que o justo meio é a média aritmética. É um meio adequado ao caso, não um valor fixo igual para todos.
- Pensar que todas as ações têm justo meio. Aristóteles diz que há ações más em si, como o homicídio e o roubo, que não têm meio.
- Confundir felicidade com prazer. Para Aristóteles é uma vida plena e ativa, não um sentimento momentâneo.
- Dizer que a virtude é inata. Temos predisposições, mas ela forma-se pelo hábito.
- Esquecer a prudência. Sem ela, o hábito não sabe onde está o meio.
Exercícios propostos
1Exercício 1
Defina «felicidade» (eudaimonia) em Aristóteles.
Ver solução
É o bem supremo do ser humano: uma atividade da alma conforme à virtude, exercida ao longo de uma vida completa. Não é só prazer, riqueza ou honra.
2Exercício 2
Distinga virtudes intelectuais de virtudes morais e dê um exemplo de cada.
Ver solução
As intelectuais (por exemplo, a prudência ou a sabedoria) aperfeiçoam o pensamento e adquirem-se sobretudo por ensino e experiência. As morais (por exemplo, a coragem ou a temperança) aperfeiçoam o caráter e adquirem-se pelo hábito.
3Exercício 3
Complete: a generosidade é o meio entre a ___ (falta) e a ___ (excesso).
Ver solução
Entre a avareza (falta) e a prodigalidade (excesso).
4Exercício 4
Explique por que razão uma única ação corajosa não torna uma pessoa corajosa.
Ver dica
Lembre a imagem da andorinha.
Ver solução
Porque a virtude é um hábito, uma disposição estável do caráter. Uma ação isolada pode ter sido por acaso. É a repetição, feita com conhecimento e escolha, que forma a virtude.
5Exercício 5
Um aluno defende que, como o justo meio é «relativo a nós», Aristóteles é relativista e tudo vale. Discuta.
Ver solução
Não é correto. O meio é relativo às circunstâncias e à pessoa (por exemplo, quanto comer depende do corpo e da atividade), mas é determinado pela razão e pela prudência, não por gosto pessoal. Além disso, há ações que são más em si, sem justo meio. Aristóteles admite variação na aplicação, não na existência de critérios.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre a ética das virtudes e uma ética de regras?
Uma ética de regras pergunta «que ações são corretas?». A de Aristóteles pergunta «que carácter devo cultivar?». Para ele, saber agir bem em cada situação exige prudência, que nenhuma lista de regras substitui por completo.
Porque é que Aristóteles liga a ética à felicidade?
Porque considera que todas as ações visam algum bem, e que o fim último é aquilo que desejamos por si mesmo e não para outra coisa: a felicidade. A virtude é o caminho para a alcançar.
O justo meio serve para tudo?
Não. Aplica-se às emoções e ações em que pode haver excesso ou falta. Há ações, como o homicídio, que são erradas sempre, e por isso não têm meio.
Que relação há com Platão e Sócrates?
Aristóteles segue Sócrates e Platão ao valorizar a virtude e a razão, mas afasta-se ao dar grande importância ao hábito e à experiência, e não apenas ao conhecimento do Bem.
Resumo
- O bem supremo é a felicidade, vivida de acordo com a virtude.
- Virtudes morais formam-se por hábito; as intelectuais, sobretudo por ensino.
- A virtude moral é o justo meio entre excesso e falta, relativo ao caso.
- A prudência (phronesis) descobre o meio em cada situação.
- Há ações más em si mesmas, sem meio.
- A obra de referência é a Ética a Nicómaco.
Onde aprofundar
- O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
- Ética a Nicómaco, de Aristóteles, em tradução portuguesa (livros I e II para começar).
- A Stanford Encyclopedia of Philosophy, entrada sobre a ética de Aristóteles, em inglês.
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