Língua Portuguesa · 3.ª–12.ª classe

Como fazer uma leitura expressiva?

  • 11 min de leitura
  • 3 exemplos resolvidos
  • 5 exercícios com solução
  • Atualizado em

Resposta curta

Para fazer uma leitura expressiva, compreenda primeiro o texto, marque as pausas e as palavras a destacar e leia em voz alta com articulação clara, ritmo calmo, entoação ajustada ao sentido e volume suficiente. Respeite a pontuação, mude a voz quando fala outra personagem e ensaie algumas vezes antes de ler perante os colegas.

O que é a leitura expressiva e quando se aplica

A leitura expressiva é a leitura em voz alta que faz o ouvinte perceber o sentido e as emoções do texto. Não basta pronunciar as palavras sem erros: é preciso dar-lhes vida com a voz. Usa-se em aulas de Língua Portuguesa, em concursos de leitura, em cerimónias da escola, na leitura de poemas e de discursos e, mais tarde, em trabalhos de rádio ou de apresentação.

Ler depressa e sem pausas é diferente de ler com expressão. Quem lê expressivamente decide onde parar, que palavras destacar e que tom usar, e só consegue fazê-lo se tiver compreendido o texto.

Pré-requisitos

  • Perceber o texto: assunto, ambiente, quem fala e que emoções aparecem.
  • Conhecer os sinais de pontuação e o que cada um pede à voz.
  • Saber pronunciar todas as palavras; consulte o dicionário quando tiver dúvidas.

Os elementos da leitura expressiva

ElementoO que éComo se treina
ArticulaçãoPronunciar cada sílaba com clarezaLer devagar, abrindo bem a boca
RitmoVelocidade e fluência da leituraRitmo calmo, abrandando nas partes importantes
EntoaçãoSubida e descida da vozAcompanhar o sentido e a pontuação
PausasSilêncios curtos e longosRespeitar a pontuação e usar pausas para dar destaque
VolumeForça da vozSer ouvido pelo último da sala, sem gritar
ÊnfaseDestaque de palavras-chaveSublinhar a lápis antes de ler
Postura e olharCorpo direito, olhar para o públicoLevantar os olhos no fim das frases

Pontuação e voz

SinalPausaO que fazer com a voz
VírgulaCurtaMantém-se suspensa, sem descer
Ponto finalLongaA voz desce e a frase conclui-se
Ponto e vírgulaMédiaVoz suspensa, ideia ainda em curso
Dois pontosCurtaAnuncia o que vem a seguir
Ponto de interrogaçãoLongaNas perguntas de sim ou não, a voz tende a subir no fim
Ponto de exclamaçãoLongaMais energia e intensidade
ReticênciasLongaVoz suspensa, a frase fica em aberto
Travessão ou aspasMudança de vozIndica que fala uma personagem

Método passo a passo

  1. Leia em silêncio para compreender. Responda a quatro perguntas: de que fala o texto? Quem fala? Que emoção domina? Há palavras que não conheço?
  2. Decida o tom (triste, alegre, solene, divertido, pensativo) e o ritmo geral.
  3. Marque o texto a lápis: uma barra (/) para pausa curta, duas barras (//) para pausa longa, sublinhado para ênfase e setas (↗ ↘) para subir ou descer a voz.
  4. Leia por unidades de sentido, isto é, por grupos de palavras que formam uma ideia, e não palavra a palavra.
  5. Ensaie em voz alta, primeiro devagar e depois no ritmo final. Se possível, grave-se no telemóvel e ouça.
  6. Corrija o que ouviu: palavras engolidas, pressa, voz sempre igual.
  7. Prepare a postura: corpo direito e texto à altura do peito, para poder levantar o olhar.
  8. Leia perante os colegas: respire fundo antes de começar, olhe para o público no fim das frases e mantenha o volume.
  9. Avalie-se com a tabela dos elementos e escolha um só aspeto para melhorar da próxima vez.

Dica

Ao ensaiar, leia o texto três vezes com objetivos diferentes: uma só para a clareza das palavras, outra só para as pausas e uma última só para a emoção. Concentrar-se numa coisa de cada vez dá melhores resultados do que tentar tudo ao mesmo tempo.

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — Marcar as pausas numa frase

Enunciado: Marque as pausas na frase: «Quando a chuva parou, o Mateus, que estava debaixo da mangueira, saiu a correr para a rua.»

Resolução:

  1. Localize a pontuação: há vírgulas depois de «parou», de «Mateus» e de «mangueira», e ponto final no fim.
  2. Identifique os grupos de sentido: [Quando a chuva parou] [o Mateus] [que estava debaixo da mangueira] [saiu a correr para a rua].
  3. Marque pausa curta (/) em cada vírgula e pausa longa (//) no ponto final.

Resposta: Quando a chuva parou, / o Mateus, / que estava debaixo da mangueira, / saiu a correr para a rua. //

Verificação: não há pausa entre o artigo e o nome («o / Mateus») nem entre o verbo e o resto da ação («saiu a correr / para a rua» lê-se de seguida), porque isso quebraria o sentido.

Exemplo 2 — Planear a leitura de uma quadra

Enunciado: Planeie a leitura expressiva da primeira quadra de um soneto de Camões: «Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói, e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer.»

Resolução:

  1. Compreenda: o poeta define o amor através de contradições (um fogo que não se vê, uma ferida que não se sente).
  2. Escolha as palavras a destacar, as que formam o contraste: arde / sem se ver; dói / não se sente; contentamento / descontente; desatina / sem doer.
  3. Marque as pausas: pausa média no fim de cada verso e pausa curta na vírgula do segundo verso.
  4. Defina o ritmo: calmo, porque o tom é reflexivo; abrande no terceiro verso para o contraste se ouvir bem.
  5. Defina o tom: pensativo, sem pressa e sem dramatizar.

Resposta: Amor é fogo que arde sem se ver; // é ferida que dói, / e não se sente; // é um contentamento descontente; // é dor que desatina sem doer. //

Verificação: cada verso é lido como uma unidade de sentido e o destaque recai nos pares de palavras opostas, que é o que dá significado à quadra.

Exemplo 3 — Nível de exame: texto narrativo com diálogo

Enunciado: Prepare a leitura expressiva do excerto (texto original): «Era já noite quando o Joaquim chegou ao quintal. A avó esperava-o à porta. — Onde andaste até agora? — perguntou ela, em voz baixa. — Fui ajudar o tio a carregar o camião — respondeu o rapaz, ofegante. — Desculpe, avó! A avó suspirou e abriu a porta.»

Resolução:

  1. Identifique as vozes: o narrador (calmo e descritivo), a avó (preocupada, voz baixa mas firme) e o Joaquim (cansado, de respiração rápida).
  2. Use os travessões como sinal de mudança de voz. Os verbos de dizer («perguntou ela», «respondeu o rapaz») são do narrador e leem-se com a voz do narrador, mais neutra.
  3. Pergunta da avó: começa por «Onde», uma palavra interrogativa, e a voz tende a descer no fim; destaque agora.
  4. Resposta do Joaquim: ritmo um pouco mais rápido, com a respiração cortada. «Desculpe, avó!» é dita com arrependimento, sem gritar.
  5. Final: pausa antes de «e abriu a porta», para dar peso ao suspiro.

Resposta:

Narrador (calmo): Era já noite / quando o Joaquim chegou ao quintal. // A avó esperava-o à porta. //

Avó (baixo e firme): — Onde andaste até agora? ↘

Narrador: — perguntou ela, / em voz baixa. //

Joaquim (ofegante, um pouco mais depressa): — Fui ajudar o tio / a carregar o camião —

Narrador: respondeu o rapaz, / ofegante. //

Joaquim (arrependido): — Desculpe, avó!

Narrador: A avó suspirou // (pausa) e abriu a porta. //

Verificação: há três vozes diferentes e cada pausa corresponde a um sinal de pontuação ou a uma intenção expressiva.

Erros frequentes

  • Ler depressa para acabar mais cedo. A pressa engole sílabas e impede o ouvinte de acompanhar. Em caso de dúvida, leia mais devagar.
  • Ler em tom monótono, com a mesma altura de voz do princípio ao fim. Marque no texto as palavras a destacar e as subidas e descidas.
  • Ignorar a pontuação: parar onde não há sinal e não parar onde há.
  • Gritar ou exagerar. Expressividade não é teatro; o volume deve chegar ao fundo da sala sem esforço.
  • Ler com a cara metida no papel. Conheça bem o texto para poder levantar o olhar no fim das frases.
  • Ler sem ter compreendido e pronunciar mal as palavras desconhecidas. Consulte o dicionário antes.
  • Ler palavra a palavra, sem agrupar o sentido. Leia por unidades de sentido.
  • Engolir o final das palavras, sobretudo no fim das frases, quando a voz desce.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Associe cada sinal ao efeito na voz: (1) vírgula; (2) ponto final; (3) reticências. (a) pausa longa e voz suspensa; (b) pausa curta e voz suspensa; (c) pausa longa e voz a descer.

Ver solução

(1)-(b); (2)-(c); (3)-(a). A vírgula pede pausa curta sem descer; o ponto final pede pausa longa e a voz desce; as reticências deixam a frase em aberto.

2Exercício 2

Marque as pausas: «Na sexta-feira, depois das aulas, os alunos foram ao campo de futebol.»

Ver solução

Na sexta-feira, / depois das aulas, / os alunos foram ao campo de futebol. // Faz-se pausa curta em cada vírgula e pausa longa no ponto final. Não se faz pausa dentro de «foram ao campo de futebol».

3Exercício 3

Como deve ler a frase «Cuidado! O chão está molhado!»? Escolha: (a) em tom monótono, a meia voz; (b) com urgência, destacando «Cuidado» e «molhado».

Ver solução

(b). A frase avisa de um perigo; a intensidade, o ritmo mais firme e o destaque das palavras-chave transmitem a urgência. Em (a) o ouvinte não perceberia o aviso.

4Exercício 4

Explique em duas frases por que razão ler depressa prejudica a leitura expressiva.

Ver dica

Pense no que acontece às pausas e às sílabas finais.

Ver solução

Ao ler depressa, perdem-se as pausas, que dão sentido às frases, e engolem-se sílabas, o que torna a leitura pouco clara. O ouvinte não tem tempo de assimilar as ideias e a emoção do texto perde-se.

5Exercício 5

Planeie a leitura do pequeno diálogo (texto original): «— Passei! — gritou a Teresa, de braços no ar. — Passei mesmo!» Indique quem fala em cada parte, o tom e a palavra a destacar.

Ver solução

«Passei!» é dito pela Teresa, em tom de grande alegria, com voz forte e ritmo rápido. «gritou a Teresa, de braços no ar» é do narrador, em voz mais neutra e um pouco mais baixa. «Passei mesmo!» é dito de novo pela Teresa, com alegria e quase incredulidade, e destaca-se mesmo. Qualquer plano que distinga narrador e personagem e justifique o tom e a ênfase está correto.

Perguntas frequentes

Qual é a velocidade ideal numa leitura expressiva?

Não há um número exato. A regra é ler mais devagar do que numa conversa, de modo que o ouvinte acompanhe cada frase e as pausas se ouçam. Abrande nos momentos importantes e acelere ligeiramente nas partes de ação.

Preciso de decorar o texto?

Não é preciso decorar, mas deve conhecê-lo bem. Quem lê o texto muitas vezes consegue levantar os olhos do papel sem se perder.

O que faço se me enganar a ler?

Pare no fim da frase, respire e repita a frase desde o princípio, com naturalidade e sem pedir longas desculpas. Um engano corrigido com calma passa quase despercebido.

Qual é a diferença entre leitura expressiva e declamação?

A leitura expressiva faz-se com o texto à frente e procura transmitir o sentido sem encenação exagerada. A declamação é a recitação de um poema, geralmente de memória, com maior carga dramática. Confirme com o seu professor o que é pedido em cada atividade.

Resumo

  • A leitura expressiva transmite o sentido e a emoção do texto através da voz.
  • Primeiro compreender, depois marcar pausas, ênfases e entoação.
  • A pontuação orienta as pausas e o movimento da voz.
  • Ler por unidades de sentido, com ritmo calmo, boa articulação e volume suficiente.
  • Ensaiar em voz alta e avaliar-se por critérios: articulação, ritmo, entoação, pausas, volume e postura.

Onde aprofundar

  • O manual de Língua Portuguesa da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, para confirmar o sentido das palavras desconhecidas antes de ler.
  • Luís de Camões, Rimas, soneto «Amor é fogo que arde sem se ver», em edição escolar, para treinar a leitura de poesia.

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