Filosofia · 10.ª–12.ª classe

Qual é a diferença entre racionalismo e empirismo?

  • 7 min de leitura
  • 3 exemplos resolvidos
  • 5 exercícios com solução
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Resposta curta

O racionalismo defende que a principal fonte do conhecimento é a razão, e admite ideias inatas. O empirismo defende que todo o conhecimento vem da experiência sensível, e a mente é inicialmente como um «papel em branco». Ambos são correntes da Filosofia moderna e respondem à pergunta: de onde vem o conhecimento?

Definição de racionalismo

O racionalismo moderno tem como figuras principais Descartes, Spinoza e Leibniz. Para estes autores:

  • A razão é capaz de atingir verdades certas e universais, como as da matemática.
  • Existem ideias inatas, presentes na mente independentemente da experiência (para Descartes, por exemplo, a ideia de Deus e as de substância e de número).
  • Os sentidos podem enganar, e por isso não são base segura para o saber.
  • O método ideal é dedutivo: parte de princípios evidentes e deduz as consequências.

Definição de empirismo

O empirismo moderno tem como figuras Francis Bacon, Locke, Berkeley e Hume. Para estes autores:

  • Todo o conteúdo do pensamento vem, direta ou indiretamente, da experiência.
  • Não há ideias inatas: Locke compara a mente, ao nascer, a um papel em branco.
  • O método é indutivo: parte de casos observados para formular generalizações.
  • Hume defende que as ideias derivam de impressões sensíveis e que o conhecimento do mundo nunca tem certeza absoluta.

Quadro comparativo

TemaRacionalismoEmpirismo
Fonte do conhecimentorazãoexperiência sensível
Ideias inatasadmiterejeita
Métododedutivoindutivo
Papel dos sentidospodem enganar; não são fundamentofonte de todas as ideias
Modelo de sabermatemáticaciência experimental
AutoresDescartes, Spinoza, LeibnizBacon, Locke, Berkeley, Hume

Semelhanças

Ambos estão ligados à revolução científica, valorizam a razão e o método, procuram um conhecimento fiável e rejeitam a mera autoridade da tradição. Kant tentou unir as duas posições.

Como identificar cada posição

  1. Pergunte: o autor admite ideias inatas? Se sim, é racionalista; se não, empirista.
  2. Pergunte: qual é o modelo de conhecimento? Matemática (racionalismo) ou observação (empirismo).
  3. Pergunte: como se justifica o saber? Por dedução a partir de princípios, ou por experiência e indução.

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — A soma dos ângulos

Enunciado: Como se explica que saibamos que os ângulos internos de um triângulo somam 180º?

Resolução:

  1. O racionalista diz: é uma verdade demonstrada pela razão a partir de axiomas, que vale universalmente sem precisar de medir todos os triângulos.
  2. O empirista pode dizer: aprendemos a noção de triângulo e de medida pela experiência; Hume, porém, reconhece que as verdades da matemática são de natureza diferente das verdades sobre factos.

Resposta: o racionalista aponta a dedução; o empirista origina as noções na experiência. Verificação: o exemplo mostra porque a matemática é o modelo do racionalismo.

Exemplo 2 — O sabor da manga

Enunciado: Uma criança em Malanje nunca provou manga. Pode ter a ideia do seu sabor só por pensar?

Resolução:

  1. Para o empirista (Locke, Hume), não: as ideias de sabor vêm de sensações. Sem experiência, não há ideia do sabor.
  2. O racionalista concorda que as sensações dão-nos sabores, mas defende que há outras ideias, como a de número ou de causa, que não vêm dos sentidos.

Resposta: a ideia de sabor vem da experiência, e a discussão está nas ideias que não vêm dos sentidos. Verificação: a questão central é a existência de ideias inatas.

Exemplo 3 — Nível de exame: a causalidade

Enunciado: Explique a posição de Hume sobre a ideia de causa.

Resolução:

  1. Observamos que um acontecimento A é seguido por B, repetidamente.
  2. Nunca observamos uma «ligação necessária» entre A e B, só a sucessão.
  3. Hume conclui que a ideia de causa nasce do hábito (da expectativa criada pela repetição) e não de uma impressão sensível da necessidade.
  4. Por isso, as nossas previsões baseiam-se na experiência passada, e não podem ter certeza absoluta.

Resposta: a causalidade assenta no hábito e na experiência, e não numa razão que veja a necessidade. Verificação: é uma crítica ao racionalismo, que Kant considerou decisiva.

Erros frequentes

  • Dizer que os racionalistas não usam a experiência. Descartes fez ciência; apenas dão prioridade à razão como fundamento.
  • Dizer que os empiristas rejeitam a razão. Usam-na para organizar a experiência.
  • Atribuir ideias inatas a Locke. Locke rejeita-as.
  • Pôr Kant num dos lados. É uma síntese.
  • Chamar racionalista a Aristóteles ou empirista a Platão só por associação rápida. Os termos referem-se às correntes modernas.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Classifique cada tese como racionalista (R) ou empirista (E): (a) existem ideias inatas; (b) a mente é um papel em branco; (c) o modelo do saber é a matemática; (d) o método é a indução.

Ver solução

(a) R; (b) E; (c) R; (d) E.

2Exercício 2

Escreva uma frase que defina ideias inatas.

Ver solução

São ideias que a mente possui independentemente da experiência, segundo os racionalistas, por exemplo, as de Deus, de número ou de substância.

3Exercício 3

Indique um autor racionalista e um empirista, e uma obra de cada.

Ver solução

Racionalista: Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira ou Discurso do Método. Empirista: Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano; ou Hume, Tratado da Natureza Humana.

4Exercício 4

Explique a afirmação de Locke de que a mente é um «papel em branco».

Ver dica

O que está escrito no papel, e quem escreve?

Ver solução

Significa que, ao nascer, a mente não tem ideias. A experiência (sensação e reflexão sobre as próprias operações da mente) vai «escrevendo» as ideias. Logo, não há ideias inatas.

5Exercício 5

Como procurou Kant superar a oposição entre as duas correntes?

Ver solução

Kant defende que o conhecimento começa com a experiência, mas não deriva só dela: a razão do sujeito traz formas (espaço, tempo, categorias) que organizam os dados sensíveis. Sem sensibilidade não há objeto; sem entendimento não há pensamento organizado.

Perguntas frequentes

Qual é mais importante?

Nenhuma é «mais importante» em geral: cada uma destacou aspetos reais do conhecimento. O racionalismo valorizou a dedução e a matemática; o empirismo, a observação e a experimentação.

Podem ocorrer em simultâneo?

Sim, em certo sentido: a ciência usa a razão (modelos, matemática) e a experiência (observação, teste). Kant mostrou como as duas se podem combinar.

Como não os confundir nos exames?

Associe racionalismo a «razão, ideias inatas, dedução, Descartes» e empirismo a «experiência, papel em branco, indução, Locke e Hume». Em caso de dúvida, pergunte primeiro se o autor aceita ideias inatas.

Berkeley e Spinoza são fáceis de classificar?

Sim, a classificação habitual é Berkeley como empirista e Spinoza como racionalista, embora as suas filosofias tenham traços muito próprios. Siga a classificação do seu manual.

Resumo

  • Racionalismo: razão como fonte, ideias inatas, dedução; Descartes, Spinoza, Leibniz.
  • Empirismo: experiência como fonte, sem ideias inatas, indução; Bacon, Locke, Berkeley, Hume.
  • Ambos nascem na época da revolução científica.
  • Hume critica a ideia de causa necessária.
  • Kant procura a síntese.

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Meditações sobre a Filosofia Primeira, de Descartes, e Ensaio sobre o Entendimento Humano, de Locke, em tradução portuguesa.
  • A Stanford Encyclopedia of Philosophy, entradas sobre racionalismo e empirismo, em inglês.

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