Filosofia · 10.ª–12.ª classe

Exercícios resolvidos de racionalismo e empirismo

  • 10 min de leitura
  • 4 exemplos resolvidos
  • 6 exercícios com solução
  • Atualizado em

Resposta curta

Para resolver exercícios sobre racionalismo e empirismo, identifique primeiro a fonte do conhecimento defendida: o racionalismo (Descartes, Espinosa, Leibniz) privilegia a razão e admite ideias inatas; o empirismo (Locke, Berkeley, Hume) afirma que todo o conhecimento vem da experiência. Depois, justifique com o autor e o argumento certos.

Resumo da teoria necessária

Antes de resolver, tenha presentes seis ideias-chave.

  • Racionalismo: a razão é a fonte principal do conhecimento seguro. Descartes (1596–1650) parte da dúvida metódica, chega ao cogito («penso, logo existo») e usa a evidência clara e distinta como critério de verdade. Admite ideias inatas, como a de Deus, a do eu pensante e as ideias matemáticas.
  • Empirismo: a mente não traz ideias de nascença. Locke (1632–1704) compara-a a uma folha em branco (tabula rasa) e deriva as ideias da sensação (experiência externa) e da reflexão (observação das nossas operações mentais).
  • Hume (1711–1776) divide os conteúdos da mente em impressões (perceções vivas) e ideias (cópias esmaecidas das impressões). Distingue relações de ideias (matemática, certas, sem recurso à experiência) de questões de facto (dependem da experiência, nunca são necessárias).
  • Causalidade em Hume: vemos um acontecimento seguir-se a outro muitas vezes, mas não vemos a «ligação necessária». A crença na causa nasce do hábito.
  • Berkeley (1685–1753) leva o empirismo ao extremo: «ser é ser percebido».
  • Leibniz (1646–1716) respondeu a Locke que nada há no intelecto que não tenha estado antes nos sentidos, exceto o próprio intelecto.

Exercícios resolvidos (nível básico)

Exemplo 1 — Classificar afirmações

Enunciado: Diga se cada afirmação é típica do racionalismo (R) ou do empirismo (E): (a) «A mente, ao nascer, é como uma folha em branco.» (b) «Temos em nós a ideia de Deus desde o nascimento.» (c) «Todas as nossas ideias derivam de impressões.»

Resolução:

  1. (a) A imagem da folha em branco é de Locke, logo empirismo.
  2. (b) Falar de uma ideia presente desde o nascimento é falar de inatismo, que é racionalista (Descartes).
  3. (c) Ligar toda a ideia a uma impressão é o princípio de Hume, logo empirismo.

Resposta: (a) E; (b) R; (c) E. Verificação: o critério foi sempre o mesmo: se se admite conhecimento anterior à experiência, é racionalismo; se tudo vem da experiência, é empirismo.

Exemplo 2 — O sentido do cogito

Enunciado: Porque é que Descartes considera «penso, logo existo» uma verdade indubitável?

Resolução:

  1. Descartes duvida de tudo o que possa ser posto em dúvida: dos sentidos, que por vezes enganam, e até das demonstrações, por hipótese de um génio enganador.
  2. Mesmo que seja enganado, para ser enganado precisa de existir como ser que pensa.
  3. Logo, a proposição «eu existo, enquanto penso» resiste a qualquer dúvida e serve de primeira certeza.

Resposta: porque a própria dúvida pressupõe um sujeito que pensa; a verdade é clara e distinta e dispensa os sentidos. Verificação: a resposta usa o conceito de dúvida metódica e o critério da evidência.

Exercícios resolvidos (nível intermédio)

Exemplo 3 — Impressão ou ideia?

Enunciado: Segundo Hume, o que é a impressão e o que é a ideia nos casos seguintes? (a) Sentir agora o calor do sol do meio-dia em Luanda. (b) Lembrar, à noite, esse calor.

Resolução:

  1. Em (a), a perceção é presente e intensa: é uma impressão.
  2. Em (b), a recordação é mais fraca e vem do que se sentiu antes: é uma ideia, cópia esmaecida da impressão.
  3. Para Hume, não há ideia sem impressão anterior que a origine.

Resposta: (a) impressão; (b) ideia. Verificação: a diferença é de vivacidade e de ordem (a ideia depende da impressão).

Exemplo 4 — Nível de exame: a causalidade

Enunciado: Um estudante vê uma bola de bilhar bater noutra, que então se move. Explique, segundo Hume, por que razão não podemos dizer que vimos a causa.

Resolução:

  1. O que a experiência nos dá é uma sequência: primeiro o movimento da bola A, depois o da bola B, em contiguidade.
  2. Não há nenhuma impressão de uma «força» ou «ligação necessária» entre os dois acontecimentos.
  3. Como já vimos muitas vezes essa sequência, a mente habitua-se e espera o segundo acontecimento ao ver o primeiro.
  4. A ideia de causa nasce, então, do hábito, e não de uma impressão da necessidade.

Resposta: vemos sucessão e regularidade, nunca a ligação necessária; a causalidade é uma crença formada pelo hábito. Verificação: a resposta evita dizer que Hume nega que haja causas na prática; nega apenas que possamos demonstrá-las pela razão ou perceber a necessidade.

Exercícios de exame

Nos exames, as questões costumam pedir três coisas: identificar a posição (racionalista ou empirista), explicar um conceito (dúvida metódica, inatismo, impressão) e comparar autores. Responda com uma tese, uma justificação curta e, se possível, um exemplo. Os dois últimos exercícios propostos abaixo seguem esse modelo.

Erros frequentes

  • Dizer que os racionalistas negam a experiência. Descartes aceita a observação; apenas considera que a certeza fundamental vem da razão.
  • Confundir inatismo com hereditariedade biológica. As ideias inatas dos racionalistas são conteúdos da razão, não características físicas.
  • Atribuir a Locke a ideia de Descartes (ou o contrário). Descartes: cogito e ideias inatas. Locke: folha em branco.
  • Pensar que Hume é um racionalista porque estuda a razão. Hume é empirista: a matéria do conhecimento vem das impressões.
  • Dizer que Hume «prova» que a causalidade não existe. Afirma que não temos fundamento racional para a necessidade, mas continuamos a agir por hábito.
  • Esquecer a distinção entre relações de ideias e questões de facto ao comparar a matemática com as ciências da natureza.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Complete: o racionalismo defende que a fonte principal do conhecimento é a ___; o empirismo defende que é a ___.

Ver solução

O racionalismo defende a razão; o empirismo defende a experiência (os sentidos e a reflexão sobre eles).

2Exercício 2

Escolha a opção correta. Quem escreveu o Discurso do Método? (a) Locke (b) Descartes (c) Hume (d) Berkeley

Ver solução

(b) Descartes. O Discurso do Método foi publicado em 1637 e contém a formulação «penso, logo existo». Locke escreveu o Ensaio sobre o Entendimento Humano e Hume a Investigação sobre o Entendimento Humano.

3Exercício 3

Explique o que são «ideias inatas» e dê um exemplo defendido por Descartes.

Ver dica

Pense nas ideias que, para Descartes, a razão encontra em si mesma e não retira dos sentidos.

Ver solução

São ideias presentes na razão independentemente da experiência. Descartes aponta, por exemplo, a ideia de Deus, a ideia do eu como coisa pensante e as ideias matemáticas. O empirista Locke rejeita este inatismo.

4Exercício 4

Dê dois exemplos de relações de ideias e dois de questões de facto, segundo Hume. Justifique a classificação.

Ver solução

Relações de ideias: «3 × 4 = 12» e «a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180°». São verdadeiras só pelo significado dos termos, não dependem de experiência e negá-las é contraditório. Questões de facto: «amanhã o sol nascerá» e «o rio Kwanza desagua no Atlântico». Dependem da experiência e a sua negação não é contraditória, só falsa ou improvável.

5Exercício 5

Compare Descartes e Locke quanto à origem das ideias, em cerca de cinco linhas, indicando uma crítica possível a cada um.

Ver solução

Descartes admite ideias inatas e considera a razão a fonte da certeza; Locke recusa-as e deriva as ideias da sensação e da reflexão. Crítica possível a Descartes: depende da existência de Deus para garantir a verdade das evidências, o que levanta o problema do círculo (o chamado círculo cartesiano). Crítica possível a Locke: se tudo vem da experiência, como se justificam verdades necessárias, como as da matemática? Leibniz respondeu que o próprio intelecto tem estruturas que a experiência não fornece.

6Exercício 6

Um colega afirma: «Hume era cético, logo duvidava de tudo e não acreditava em nada.» Avalie a afirmação com base na teoria de Hume.

Ver dica

Lembre o papel do hábito.

Ver solução

A afirmação é exagerada. Hume critica a pretensão de justificar racionalmente a causalidade, a identidade do eu e outras crenças, mas reconhece que na vida prática a natureza nos leva a acreditar através do hábito e do costume. É um ceticismo moderado: limita o alcance da razão sem pedir que se deixe de agir ou de fazer ciência.

Perguntas frequentes

Como estudar este tema com exercícios?

Faça uma tabela com duas colunas (racionalismo e empirismo) e preencha-a com autor, fonte do conhecimento, conceito-chave e crítica. Depois resolva um exercício de cada tipo (classificar, explicar, comparar) e confira com a solução antes de passar ao seguinte.

Que tipo de exercícios saem nos exames?

Normalmente, escolha múltipla sobre autores e conceitos, perguntas de resposta curta sobre o cogito, o inatismo ou as impressões e uma questão de desenvolvimento que pede comparação. Confirme o formato no programa em vigor.

Qual é a diferença entre inatismo e racionalismo?

O inatismo é a tese de que existem ideias desde o nascimento. O racionalismo é uma posição mais ampla, que dá primazia à razão. Os racionalistas clássicos defenderam o inatismo, mas as duas noções não são sinónimas.

Onde posso rever a teoria?

No manual da sua classe e nas entradas sobre Descartes, Locke e Hume nas enciclopédias de filosofia indicadas abaixo.

Resumo

  • Racionalismo: razão, evidência clara e distinta, ideias inatas (Descartes, Espinosa, Leibniz).
  • Empirismo: experiência como origem das ideias (Locke, Berkeley, Hume).
  • Em Locke, as ideias vêm da sensação e da reflexão; em Hume, das impressões.
  • Hume explica a causalidade pelo hábito, não por uma ligação necessária observada.
  • Nos exames, identifique a posição, defina o conceito e justifique com o autor.

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Meditações sobre Filosofia Primeira, de Descartes, e Investigação sobre o Entendimento Humano, de Hume, em tradução portuguesa.
  • A Stanford Encyclopedia of Philosophy e a Internet Encyclopedia of Philosophy (em inglês), entradas sobre racionalismo, empirismo, Descartes e Hume.

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