Filosofia · 10.ª–12.ª classe

O que é a dúvida metódica de Descartes?

  • 7 min de leitura
  • 3 exemplos resolvidos
  • 5 exercícios com solução
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Resposta curta

A dúvida metódica é o procedimento de Descartes que consiste em pôr em dúvida tudo o que pode ser posto em dúvida, de forma voluntária e provisória, para ver se resta alguma verdade absolutamente certa. Não é ceticismo: a dúvida é um meio, e conduz à primeira certeza, o cogito («penso, logo existo»).

O que é

René Descartes (1596–1650) foi filósofo e matemático francês. No Discurso do Método (1637) e nas Meditações sobre a Filosofia Primeira (1641), parte de uma constatação: ao longo da vida aceitou muitas opiniões que depois reconheceu falsas. Se quer um saber seguro, tem de reconstruir o conhecimento desde os alicerces.

Para isso, decide rejeitar como falso tudo o que admita a mínima dúvida. Chama-se metódica porque é um método com ordem e finalidade; e chama-se por vezes hiperbólica porque leva a dúvida ao exagero para testar a certeza.

Características

  • Voluntária: é uma decisão do filósofo, não um estado de aflição.
  • Provisória: dura até encontrar uma certeza.
  • Universal: aplica-se a todas as crenças, por princípio.
  • Radical: basta um motivo para duvidar para pôr de lado a crença.
  • Metódica: tem passos, e visa a verdade, não a dúvida em si.

A distinção que o exame pede

Dúvida céticaDúvida metódica
Objetivoconcluir que não se pode conhecerencontrar uma certeza
Duraçãodefinitivaprovisória
Estatutoposição finalinstrumento

Os passos da dúvida

  1. Os sentidos enganam-se às vezes: uma torre quadrada vista ao longe parece redonda. Se me enganaram uma vez, não posso confiar plenamente neles.
  2. A dúvida do sonho: não há sinais seguros que distingam a vigília do sonho. Posso estar a sonhar agora, e por isso a minha perceção do corpo e do mundo é duvidosa.
  3. As verdades matemáticas: mesmo «2 + 3 = 5» parece certo, mas poderia haver um erro que eu não vejo.
  4. O génio maligno: imagina um ser muito poderoso e enganador que me faz errar sempre, mesmo nas evidências.
  5. A primeira certeza: mesmo que seja enganado, tenho de existir para ser enganado. Assim surge o cogito: «penso, logo existo».

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — Aplicar o primeiro motivo de dúvida

Enunciado: Num dia quente de Luanda, vê-se ao longe uma poça de água na estrada que desaparece quando se chega perto. Como usa Descartes este tipo de caso?

Resolução:

  1. A perceção enganou-nos: víamos água onde não havia.
  2. Se os sentidos já me enganaram, não posso ter certeza absoluta sobre eles.
  3. Descartes decide, por prudência, não confiar inteiramente no que já o enganou.

Resposta: as ilusões dos sentidos fornecem o primeiro motivo de dúvida. Verificação: a conclusão é que a certeza não pode assentar só nos sentidos, e não que o mundo não existe.

Exemplo 2 — O argumento do sonho

Enunciado: Resuma o argumento do sonho e diga o que ele mostra.

Resolução:

  1. Quando sonho, estou convencido de que o que vejo é real.
  2. Não existe, no momento, um sinal infalível que distinga o sonho da vigília.
  3. Logo, posso estar a sonhar agora, e as coisas que julgo ver podem não existir como penso.
  4. Ficam duvidosas as coisas compostas, como corpos e lugares, mas resistem, para já, as verdades simples, como as da matemática.

Resposta: o argumento alarga a dúvida a todo o conhecimento do mundo físico. Verificação: para duvidar ainda dos números, Descartes introduz o génio maligno.

Exemplo 3 — Nível de exame: do génio maligno ao cogito

Enunciado: Explique como a dúvida chega a uma certeza.

Resolução:

  1. Suponha-se um génio maligno que me engana em tudo o que posso pensar.
  2. Para ser enganado, tenho de existir. Se não existisse, não haveria ninguém a enganar.
  3. Enquanto penso (duvido, entendo, quero, imagino, sinto), não posso duvidar de que existo.
  4. A certeza «sou, existo» é a primeira indubitável.

Resposta: o próprio ato de duvidar prova a existência de quem duvida (cogito). Verificação: Descartes conclui que é uma «coisa pensante» (res cogitans), e não que o corpo existe.

Importância e aplicações

  • Fundação do racionalismo moderno: Descartes procura um alicerce seguro na razão.
  • Método: inspira o espírito crítico e a exigência de evidência em ciência.
  • Estudo e vida: aprender a distinguir o que se sabe do que apenas se acredita, a rever ideias herdadas e a não aceitar informação sem verificar.

Erros frequentes

  • Dizer que Descartes era cético. A dúvida é provisória e serve para chegar à certeza.
  • Pensar que ele duvida realmente da existência de tudo no quotidiano. A dúvida é feita no plano da reflexão filosófica; na vida prática, ele adota uma moral provisória.
  • Esquecer a ordem dos motivos: sentidos, sonho, matemática/génio maligno, cogito.
  • Confundir dúvida metódica com falta de fé ou de ciência. É um instrumento de busca.
  • Dizer que o cogito prova a existência do mundo. Prova a existência de quem pensa; o resto vem depois.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Defina dúvida metódica em duas frases.

Ver solução

É o procedimento de Descartes que consiste em duvidar, voluntária e provisoriamente, de tudo o que não seja absolutamente certo, para encontrar uma verdade indubitável. É um método, não uma posição cética final.

2Exercício 2

Indique três características da dúvida metódica.

Ver solução

Voluntária, provisória e universal (ou radical). Pode ainda dizer-se hiperbólica e metódica.

3Exercício 3

Complete: o argumento do ___ mostra que não há sinais seguros para distinguir ___ de ___.

Ver solução

Do sonho; vigília de sonho.

4Exercício 4

Diferencie dúvida metódica de ceticismo.

Ver dica

Compare a finalidade de cada uma.

Ver solução

O cético conclui que não podemos conhecer a verdade, e a dúvida é definitiva. Descartes duvida para encontrar uma certeza: a dúvida é provisória e instrumental. Termina com o cogito.

5Exercício 5

Explique por que razão a hipótese do génio maligno não consegue atingir o cogito.

Ver solução

Porque, mesmo que um génio enganador me engane sempre, só pode enganar quem existe. Para ser enganado, tenho de pensar e de existir. Portanto, a hipótese pode abalar tudo, menos a certeza da minha existência enquanto penso.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre dúvida metódica e dúvida cética?

A cética é uma conclusão: nada se pode saber. A metódica é um caminho: duvidar para encontrar uma certeza. Em Descartes, termina no cogito.

Onde se aplica a dúvida metódica na prática?

Na atitude crítica: verificar fontes, distinguir factos de opiniões e rever ideias que nunca foram examinadas. Não se aplica, contudo, como dúvida total na vida diária.

Descartes duvidou também de Deus?

Em certo sentido sim: a hipótese do génio maligno pergunta se o criador não poderia ser enganador. Depois do cogito, Descartes procura provar a existência de Deus e garantir, por ele, a fiabilidade da razão. Convém estudar esta parte no manual.

Em que obra está a dúvida metódica?

Nas Meditações sobre a Filosofia Primeira, sobretudo na Primeira Meditação, e resumida na quarta parte do Discurso do Método.

Resumo

  • A dúvida metódica é voluntária, provisória, universal e radical.
  • Parte das ilusões dos sentidos, do sonho e do génio maligno.
  • Termina na primeira certeza: «penso, logo existo».
  • Não é ceticismo: serve para fundar o conhecimento.
  • É base do racionalismo moderno.

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Discurso do Método e Meditações sobre a Filosofia Primeira, de Descartes, em tradução portuguesa.
  • A Stanford Encyclopedia of Philosophy, entrada sobre Descartes, em inglês.

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