Filosofia · 11.ª–12.ª classe
Qual é a diferença entre utilitarismo e deontologia?
Resposta curta
O utilitarismo avalia uma ação pelas suas consequências: é boa a que produz a maior felicidade para o maior número de pessoas. A deontologia avalia-a pelo dever: é boa a que cumpre uma regra moral válida, independentemente do resultado. Um olha para o fim, a outra para o princípio.
Definição de utilitarismo
O utilitarismo é uma ética consequencialista. Os seus principais representantes clássicos são Jeremy Bentham (1748–1832) e John Stuart Mill (1806–1873). A ideia central, o princípio da utilidade, diz que devemos agir de modo a produzir o máximo de bem-estar (prazer, felicidade) e o mínimo de sofrimento para o conjunto dos afetados.
Características principais:
- O valor moral de um ato depende só dos seus efeitos.
- Todos contam por igual: a felicidade de cada pessoa pesa o mesmo.
- Não há ações proibidas em absoluto: mentir, por exemplo, pode ser aceitável se do ato resultar mais bem-estar do que mal-estar.
- Mill distinguiu prazeres de qualidade diferente (os intelectuais e morais valem mais do que os meramente físicos), o que corrigiu a versão mais simples de Bentham.
Definição de deontologia
A palavra vem do grego deon, «dever». A deontologia é uma ética do dever. O seu maior representante é Immanuel Kant (1724–1804). Para Kant, uma ação só tem valor moral quando é feita por dever, isto é, por respeito à lei moral, e não por interesse ou por causa dos resultados.
Características principais:
- Existem regras ou deveres que valem sempre (não mentir, não matar inocentes, cumprir promessas).
- O imperativo categórico é o critério: age só segundo uma máxima que possas querer que se torne lei universal; e trata a humanidade, em ti e nos outros, sempre como fim e nunca apenas como meio.
- As pessoas têm dignidade: não podem ser sacrificadas para benefício dos outros.
- A boa vontade (a intenção de cumprir o dever) é o que torna a ação moralmente boa.
Quadro comparativo
| Utilitarismo | Deontologia (Kant) | |
|---|---|---|
| Tipo de ética | consequencialista | do dever |
| O que se avalia | os resultados do ato | a intenção e a regra seguida |
| Critério | maior felicidade para o maior número | imperativo categórico |
| Pergunta-chave | «O que dá melhor resultado?» | «Qual é o meu dever?» |
| Regras absolutas? | não, dependem das consequências | sim, há deveres sem exceção |
| Pessoa | conta como uma parcela do total | tem dignidade, é um fim em si |
| Autores | Bentham, Mill | Kant |
Semelhanças
Ambas são éticas racionais e universalistas: procuram princípios válidos para todos, não apenas para um grupo, e não aceitam que a moral seja simples gosto pessoal. Ambas pedem imparcialidade: o que vale para mim vale para os outros.
Exemplos
Exemplo 1 — Mentir para proteger alguém
Enunciado: Um vizinho, que ameaça um colega teu, pergunta-te onde ele se escondeu. Se disseres a verdade, o colega será agredido. Como respondem as duas éticas?
Resolução:
- Utilitarismo: comparam-se os resultados. Dizer a verdade causa sofrimento grave; mentir evita-o. O saldo de bem-estar é maior com a mentira.
- Deontologia kantiana: a máxima «mentir quando me convém» não pode tornar-se lei universal, pois destruiria a confiança na palavra. Por isso mentir é contrário ao dever.
Resposta: o utilitarista aceita a mentira; o deontologista (na versão de Kant) não. Verificação: o utilitarista justificou-se pelas consequências, o deontologista por uma regra sem exceções.
Exemplo 2 — Distribuir medicamentos
Enunciado: Um hospital tem cinco doentes que precisam de um transplante de órgãos diferentes. Um visitante saudável poderia salvar os cinco se fosse sacrificado. Que dizem as duas éticas?
Resolução:
- Contas simples do utilitarismo: morre um, vivem cinco, logo o saldo parece favorável ao sacrifício (se só se contarem estes efeitos).
- A deontologia recusa: o visitante seria usado apenas como meio, o que viola a sua dignidade.
- Muitos utilitaristas respondem que, a longo prazo, o medo e a perda de confiança nos hospitais causariam mais mal do que bem, e por isso também rejeitam o ato.
Resposta: a deontologia rejeita o ato por princípio; o utilitarismo depende do cálculo das consequências totais. Verificação: o exemplo mostra a principal crítica ao utilitarismo (pode sacrificar indivíduos) e como os utilitaristas respondem.
Exemplo 3 — Nível de exame: devolver uma carteira
Enunciado: Encontras uma carteira com dinheiro e documentos. Ninguém te viu e o dono é rico. Devolves? Justifica segundo cada ética.
Resolução:
- Utilitarismo: ficar com o dinheiro dá-te algum benefício; devolver evita transtorno ao dono e favorece a confiança social. O bem-estar total é maior se devolveres.
- Deontologia: tens o dever de não tirar o que não é teu; a regra vale mesmo sem testemunhas e mesmo que o dono seja rico.
- Diferença: Kant exige que o motivo seja o dever. Quem devolve só por medo de ser apanhado age conforme ao dever, mas não por dever.
Resposta: ambas concluem que se devolve, mas por razões diferentes: consequências ou dever. Verificação: compare os motivos, não só a decisão final.
Quando usar ou identificar cada um
Num texto ou num caso, procure as palavras-chave:
- Utilitarismo: «consequências», «resultados», «maior número», «felicidade», «benefício total», «saldo».
- Deontologia: «dever», «regra», «princípio», «dignidade», «universal», «nunca», «independentemente do resultado».
Como memorizar a diferença
- U de utilitarismo, U de «útil», o que dá bons resultados.
- D de deontologia, D de «dever».
- Pergunte-se: «O que importa é o que acontece depois ou o que se deve fazer?»
Erros frequentes
- Dizer que o utilitarismo defende o egoísmo. Pelo contrário, conta a felicidade de todos por igual, não só a de quem age.
- Pensar que o utilitarismo só conta prazer físico. Mill valorizou os prazeres intelectuais e morais.
- Confundir deontologia com obediência a qualquer ordem. Para Kant, o dever vem da razão e da lei moral universal, não de autoridades.
- Dizer que a deontologia ignora as consequências. Não as ignora; só não as usa como critério do valor moral do ato.
- Atribuir o imperativo categórico a Mill ou o princípio da utilidade a Kant. Trocar os autores custa pontos em exame.
- Responder só «qual a decisão» e esquecer a justificação. Nos exames, o que se avalia é a razão apresentada.
Exercícios propostos
1Exercício 1
Escolha múltipla: «Um ato é correto se produzir o maior bem-estar para o maior número.» Esta frase exprime a posição de: (a) Kant; (b) Bentham e Mill; (c) Platão.
Ver solução
Resposta (b). É o princípio da utilidade, do utilitarismo de Bentham e Mill.
2Exercício 2
Complete: a ética de Kant é uma ética do ___ e o critério fundamental é o imperativo ___.
Ver solução
Do dever; imperativo categórico.
3Exercício 3
Um comerciante do mercado do Roque Santeiro pode enganar um cliente na balança sem que ninguém note, ganhando mais. Que dirá um deontologista kantiano?
Ver dica
Pense se a máxima «enganar quando ninguém vê» poderia ser lei universal.
Ver solução
Dirá que é errado. A máxima de enganar não pode ser universalizada, porque se todos a seguissem a confiança nas trocas desapareceria. Além disso, o cliente seria tratado apenas como meio. O dever de ser honesto vale mesmo sem testemunhas.
4Exercício 4
Explique em duas ou três frases por que razão uma objeção comum ao utilitarismo é que pode justificar a injustiça para com uma minoria. Como responde um utilitarista?
Ver solução
Como o utilitarismo soma o bem-estar total, pode parecer aceitar sacrificar uma minoria se isso aumentar o bem da maioria. É a objeção da injustiça. O utilitarista pode responder que respeitar a justiça e os direitos produz, a longo prazo, mais bem-estar para todos (confiança, segurança), por isso as regras de justiça têm valor por causa das consequências.
5Exercício 5
Compare as duas éticas em relação à frase «o fim justifica os meios». Qual delas a aceita com mais facilidade e porquê?
Ver solução
O utilitarismo aceita-a com mais facilidade, pois avalia os atos pelos resultados e, em princípio, um meio é aceitável se levar a bons resultados no balanço total. A deontologia recusa-a: há meios proibidos (como mentir ou usar pessoas como simples instrumentos), mesmo que o fim seja bom. Convém acrescentar que um utilitarista não aceita qualquer meio, pois os meios também produzem consequências que contam no cálculo.
Perguntas frequentes
Qual é mais importante?
Nenhuma é «mais importante» em geral: são duas grandes tradições da ética que respondem de modos diferentes à mesma pergunta («o que devo fazer?»). Cada uma tem pontos fortes e objeções, e o programa pede que saiba expor ambas e compará-las.
Podem ocorrer em simultâneo?
Num mesmo caso podem chegar à mesma decisão, como no exemplo da carteira, mas por razões distintas. Como teorias, são incompatíveis no critério: uma avalia pelo resultado, outra pelo dever. Há filósofos que tentam combiná-las, mas isso já é uma terceira posição.
Como não os confundir nos exames?
Procure primeiro o critério usado no texto: se se fala de resultados, saldo ou felicidade geral, é utilitarismo; se se fala de dever, regra, dignidade ou lei universal, é deontologia. Depois associe o autor: Bentham e Mill ao primeiro, Kant à segunda.
Kant ignora mesmo as consequências?
Não as ignora na vida prática, mas não são elas que dão valor moral à ação. Para Kant, o que torna uma ação moralmente boa é ser feita por dever, ou seja, por respeito à lei moral.
Resumo
- Utilitarismo: ética das consequências; critério, a maior felicidade para o maior número (Bentham, Mill).
- Deontologia: ética do dever; critério, o imperativo categórico e a dignidade da pessoa (Kant).
- Para o utilitarismo não há regras absolutas; para a deontologia há deveres sem exceção.
- Podem concordar na decisão, mas justificam-na de forma diferente.
- Truque: U de útil/resultados, D de dever/regra.
Onde aprofundar
- O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
- Utilitarismo, de John Stuart Mill, e a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant, em tradução portuguesa.
- A Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês), entradas sobre consequencialismo e sobre a ética de Kant.
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