Filosofia · 11.ª–12.ª classe

O que é o utilitarismo?

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  • 3 exemplos resolvidos
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Resposta curta

O utilitarismo é uma teoria ética consequencialista: uma ação é moralmente certa quando produz, para todos os afetados, mais felicidade (ou bem-estar) e menos sofrimento do que as alternativas. Foi desenvolvido por Jeremy Bentham e John Stuart Mill. O critério é a utilidade das consequências, e não a intenção ou o dever em si.

O que é

O utilitarismo nasce na Inglaterra, entre o fim do século XVIII e o século XIX, num tempo de reformas políticas e legais. Bentham (1748–1832) publicou a Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação em 1789; Mill (1806–1873) defendeu e corrigiu a teoria em Utilitarismo (1863). Ambos queriam uma moral e uma legislação baseadas em razões verificáveis, sem apelo a tradições ou a autoridades.

Quatro traços essenciais

  1. Consequencialismo: o valor moral de uma ação depende exclusivamente das suas consequências.
  2. Hedonismo (em sentido amplo): o que é bom em si é a felicidade, entendida como prazer e ausência de dor.
  3. Imparcialidade: o bem-estar de cada pessoa conta igualmente, incluindo o de desconhecidos. Ninguém conta mais por ser familiar ou poderoso.
  4. Agregação: soma-se o bem-estar de todos os afetados para comparar as opções.

Bentham e Mill

BenthamMill
Como avaliar os prazeressó pela quantidade (intensidade, duração, etc.)também pela qualidade: há prazeres superiores (intelectuais, morais) e inferiores
Instrumento«cálculo felicífico»juízo de pessoas experientes nos dois tipos de prazer
Frase conhecidatodos contam por um, ninguém por mais de um«mais vale ser Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito» (ideia central do capítulo 2 de Utilitarismo)

Utilitarismo de ato e de regra

  • De ato: avalia cada ação concreta pelas suas consequências.
  • De regra: avalia as regras (por exemplo, «cumprir promessas»), e a ação é correta se seguir a regra cuja adoção geral produz mais bem-estar.

A distinção serve, em parte, para responder a críticas: o utilitarismo de regra protege direitos e promessas com mais facilidade.

Exemplos

Exemplo 1 — Comparar duas opções de uso de verba

Enunciado: Uma associação de uma escola tem de escolher entre: (A) comprar livros que beneficiam 60 alunos, com ganho de bem-estar de 3 pontos cada; (B) arranjar o campo de jogos que beneficia 40 alunos, com ganho de 5 pontos cada. Qual escolheria um utilitarista (de ato), se não houver outros efeitos?

Resolução:

  1. Calcule o total de A: 60 × 3 = 180.
  2. Calcule o total de B: 40 × 5 = 200.
  3. Compare: 200 é maior do que 180.

Resposta: a opção B, por produzir maior bem-estar total (200 contra 180). Verificação: com os mesmos dados, se A beneficiasse 70 alunos, o total seria 70 × 3 = 210, e a escolha mudaria.

Exemplo 2 — Distinguir quantidade e qualidade

Enunciado: Um estudante diz: «Para Bentham, ler um bom livro vale o mesmo que jogar durante o mesmo tempo, se ambos derem igual prazer.» Concorda, segundo Bentham e segundo Mill?

Resolução:

  1. Bentham olha para a quantidade de prazer. Se a intensidade, a duração e os restantes fatores forem iguais, os dois prazeres valem o mesmo.
  2. Mill introduz a qualidade: quem experimentou ambos prefere, em regra, os prazeres superiores (intelectuais).
  3. Logo, para Mill, o livro pode valer mais do que o jogo, mesmo com igual intensidade.

Resposta: de acordo com Bentham, sim; segundo Mill, não necessariamente. Verificação: a diferença entre os dois é um ponto típico de exame.

Exemplo 3 — Nível de exame: a objeção da injustiça

Enunciado: Um utilitarista defende que se deve sacrificar o interesse de uma pessoa inocente para beneficiar muitas outras. Que objeção se levanta e como pode o utilitarismo de regra responder?

Resolução:

  1. Objeção: se só contar a soma, pode justificar-se tratar injustamente uma minoria, violando direitos individuais.
  2. Resposta do utilitarismo de regra: uma regra geral que permitisse punir inocentes destruiria a confiança nas instituições e causaria muito mais sofrimento no conjunto.
  3. Logo, a regra «não punir inocentes» é a que maximiza o bem-estar e protege a pessoa.

Resposta: a objeção é a da justiça e dos direitos; o utilitarismo de regra responde que respeitar certas regras gerais produz globalmente mais bem-estar. Verificação: os críticos ainda podem dizer que os direitos não deviam depender dessa soma.

Importância e críticas

  • Importância: influenciou reformas penais, a saúde pública, a economia do bem-estar e a ética dos animais (que Bentham antecipou ao dizer que a questão é se eles podem sofrer).
  • Críticas: (1) dificuldade em medir e comparar a felicidade; (2) possibilidade de justificar a injustiça para com minorias; (3) exigência excessiva, pois obriga a pensar sempre no bem geral; (4) ignora o valor da intenção e do dever, como sublinha a ética de Kant.

Erros e confusões frequentes

  • Pensar que «utilidade» é só dinheiro ou vantagem pessoal. É o bem-estar de todos os afetados.
  • Confundir utilitarismo com egoísmo. O egoísmo conta só o próprio; o utilitarismo conta todos por igual.
  • Atribuir a Mill a defesa de que só a quantidade conta. Mill acrescenta a qualidade.
  • Dizer que o utilitarismo ignora as consequências a longo prazo. Bentham incluía a fecundidade e a pureza dos prazeres.
  • Contrapor o utilitarismo ao dever de forma simplista. O que difere é o fundamento.
  • Esquecer a diferença entre ato e regra.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Complete: o utilitarismo é uma ética ___ porque avalia as ações pelas ___.

Ver solução

consequencialista; consequências.

2Exercício 2

Calcule: uma medida dá 5 pontos de bem-estar a 30 pessoas e retira 4 pontos a 10 pessoas. Qual é o saldo total?

Ver solução

Ganho: 30 × 5 = 150. Perda: 10 × 4 = 40. Saldo: 150 − 40 = 110. A medida produz um saldo positivo de 110 pontos.

3Exercício 3

Escolha a opção correta. A diferença central entre Mill e Bentham é que Mill: (a) rejeita o consequencialismo (b) distingue prazeres superiores e inferiores (c) defende o egoísmo (d) só conta a intenção

Ver solução

(b). Mill distingue a qualidade dos prazeres. Continua a ser consequencialista.

4Exercício 4

Duas políticas: P1 dá +4 a 25 pessoas; P2 dá +6 a 15 pessoas e −2 a 5 pessoas. Qual prefere um utilitarista? Justifique com cálculos.

Ver dica

Calcule o saldo de cada política.

Ver solução

P1: 25 × 4 = 100. P2: 15 × 6 = 90 e 5 × 2 = 10; saldo 90 − 10 = 80. Como 100 é maior do que 80, prefere P1.

5Exercício 5

Compare o utilitarismo e a ética de Kant a propósito de uma promessa feita a uma pessoa que morreu e cujo cumprimento não beneficiaria ninguém.

Ver solução

Um utilitarista de ato pode dizer que, se cumprir não aumenta o bem-estar de ninguém (e custa algo), não há razão para cumprir; o utilitarismo de regra lembrará que a prática de cumprir promessas é útil para todos e que quebrá-las minaria a confiança. Para Kant, prometer cria um dever que não depende do resultado: a máxima de quebrar promessas quando ninguém ganha com isso não é universalizável, e a pessoa morta merece ser tratada como fim.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre utilitarismo e egoísmo?

O egoísmo considera só o interesse de quem age. O utilitarismo soma o bem-estar de todos os afetados, e o do agente conta apenas como o de qualquer outro.

Onde se aplica o utilitarismo na prática?

Em decisões públicas que comparam custos e benefícios para muita gente, como prioridades na saúde, na educação ou nas infraestruturas.

O utilitarismo aceita qualquer meio se o fim for bom?

Não necessariamente. O utilitarismo de regra, e o próprio Mill, dão grande peso à justiça e aos direitos porque a sua violação geral produziria muito sofrimento.

Que erros os estudantes cometem sobre o utilitarismo?

Tomam utilidade por vantagem pessoal, esquecem a imparcialidade e não separam Bentham (quantidade) de Mill (qualidade).

Resumo

  • Utilitarismo: ética consequencialista baseada na felicidade de todos.
  • Autores: Bentham (1789) e Mill (1863).
  • Traços: consequências, bem-estar, imparcialidade, agregação.
  • Bentham mede a quantidade de prazer; Mill acrescenta a qualidade.
  • Ato contra regra; objeções: justiça, medição, exigência.

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Utilitarismo, de John Stuart Mill, em tradução portuguesa; Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação, de Bentham.
  • A Stanford Encyclopedia of Philosophy (entrada sobre o consequencialismo e o utilitarismo) e a Internet Encyclopedia of Philosophy.

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