Filosofia · 11.ª–12.ª classe

Quais são os erros mais comuns em filosofias do século XIX?

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  • 3 exemplos resolvidos
  • 5 exercícios com solução
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Resposta curta

Os erros mais frequentes sobre as filosofias do século XIX são trocar os autores e as teses (atribuir a Nietzsche o que é de Marx), simplificar demais (dizer que Marx «só fala de economia» ou que Nietzsche «defende a violência») e citar frases soltas sem as explicar. Evita-se identificando o problema de cada autor e a ideia central.

Porque se cometem estes erros

O século XIX é denso: Hegel, Comte, Kierkegaard, Marx, Engels, Nietzsche e Schopenhauer escreveram em poucas décadas e discutiram uns com os outros. Muitos estudantes decoram frases famosas («Deus morreu», «a religião é o ópio do povo») sem o contexto, ou misturam corrente, autor e conceito. A solução é estudar cada autor com uma ficha de quatro linhas: problema, tese central, conceitos-chave, adversário.

Ficha de apoio

AutorIdeia centralConceitos-chave
Hegel (1770–1831)a história é o desenvolvimento da razão (idealismo)dialética, Espírito, Estado
Comte (1798–1857)o saber científico é o único válido (positivismo)lei dos três estados
Kierkegaard (1813–1855)a existência individual não cabe em sistemasangústia, escolha, fé
Marx (1818–1883)as condições materiais determinam a sociedadeluta de classes, alienação, mais-valia
Nietzsche (1844–1900)crítica dos valores tradicionais e da moralmorte de Deus, vontade de poder, além-homem

Os erros, com exemplo e correção

Erro 1 — Confundir idealismo e materialismo

Versão errada: «Marx continuou Hegel e, tal como ele, defendia que as ideias determinam a história.»

Versão corrigida: Marx aproveitou o método dialético de Hegel, mas inverteu-o: para Marx são as condições materiais (a produção, o trabalho, a economia) que explicam as ideias, e não o contrário. Hegel é idealista; Marx é materialista.

Erro 2 — Reduzir Marx à economia ou a um regime político

Versão errada: «Marx criou a União Soviética» ou «Marx só estudou o dinheiro.»

Versão corrigida: Marx foi filósofo, crítico da sociedade e economista. Analisou a alienação do trabalhador, a luta de classes e a mais-valia. Os regimes que se reclamaram do marxismo no século XX são interpretações políticas posteriores e não se confundem com o pensamento do próprio Marx.

Erro 3 — Citar a frase da religião sem a explicar

Versão errada: «Marx dizia que a religião é o ópio do povo, portanto odiava os crentes.»

Versão corrigida: na frase, o «ópio» funciona como consolo perante o sofrimento social: a religião é vista como expressão e alívio de uma miséria real. A crítica de Marx dirige-se às condições que tornam esse consolo necessário e não às pessoas.

Erro 4 — Ler «Deus morreu» como alegria de Nietzsche

Versão errada: «Nietzsche celebra a morte de Deus e acha que cada um pode fazer o que quiser.»

Versão corrigida: a expressão, que aparece em A Gaia Ciência, é um diagnóstico: a crença no Deus cristão perdeu credibilidade na cultura europeia, e com ela desabam os valores que nela se apoiavam. Daí o perigo do niilismo. A tarefa, para Nietzsche, é criar novos valores, não viver sem nenhum.

Erro 5 — Fazer de Nietzsche um apologista da violência

Versão errada: «A vontade de poder é o desejo de dominar os outros pela força.»

Versão corrigida: a vontade de poder é, em Nietzsche, a força de afirmação e de crescimento que atravessa a vida; inclui a superação de si próprio. O além-homem (ou super-homem, Übermensch) é quem cria valores e afirma a vida, não um tirano. A associação posterior ao nazismo deformou o seu pensamento e é recusada pelos estudiosos.

Erro 6 — Chamar «positivismo» a qualquer filosofia científica

Versão errada: «O positivismo de Comte defende que a metafísica é o estado final do saber.»

Versão corrigida: na lei dos três estados, Comte descreve a evolução do pensamento: estado teológico, estado metafísico e estado positivo (científico). O terceiro é o ponto de chegada, e a metafísica é uma fase de transição.

Erro 7 — Confundir Kierkegaard com os sistemas

Versão errada: «Kierkegaard continua o sistema de Hegel.»

Versão corrigida: Kierkegaard critica o sistema hegeliano porque, na sua opinião, não explica a existência concreta do indivíduo, com a sua angústia e a necessidade de escolher. Fala de estádios da existência: o estético, o ético e o religioso.

Verificação rápida antes de entregar

  • A tese que atribuí é mesmo deste autor?
  • Expliquei o conceito ou só citei a palavra?
  • Distingui o filósofo da corrente que veio depois?
  • Evitei verbos como «odiava», «defendia a violência», sem apoio no texto?
  • Dei um exemplo ou uma justificação?

Exemplos resolvidos de correção

Exemplo 1 — Corrigir uma resposta de exame

Enunciado: Um aluno escreveu: «Para Marx, a sociedade é dividida em ricos e pobres e o Estado é neutro.» Corrija.

Resolução:

  1. Marx fala de classes sociais definidas pela relação com os meios de produção (burguesia, que os possui, e proletariado, que vende a sua força de trabalho), mais rigoroso do que «ricos e pobres».
  2. Para Marx, o Estado não é neutro: na sociedade capitalista tende a defender os interesses da classe dominante.

Resposta: «Para Marx, a sociedade capitalista divide-se em classes definidas pela posse dos meios de produção, e o Estado serve, em geral, os interesses da classe dominante.» Verificação: a resposta usa o critério dos meios de produção e corrige o falso «Estado neutro».

Exemplo 2 — Corrigir a leitura de «Deus morreu»

Enunciado: «Nietzsche prova que Deus não existe.» Corrija.

Resolução:

  1. Nietzsche não faz uma demonstração lógica da inexistência de Deus.
  2. Faz uma constatação cultural: a fé deixou de sustentar a moral e a ciência europeias.
  3. Daí tira consequências: risco de niilismo e necessidade de novos valores.

Resposta: Nietzsche diagnostica a perda de credibilidade da fé cristã e as suas consequências para os valores, sem pretender uma prova de inexistência. Verificação: a correção troca «prova» por «diagnóstico» e indica as consequências.

Exemplo 3 — Nível de exame: duas teses trocadas

Enunciado: «Segundo Comte, a história da humanidade é a luta entre classes; segundo Marx, passa pelos estados teológico, metafísico e positivo.» Encontre o erro.

Resolução:

  1. A «luta de classes» como motor da história é de Marx (com Engels).
  2. A lei dos três estados é de Comte.
  3. As duas teses estão trocadas.

Resposta: «Segundo Marx, a história é a luta entre classes; segundo Comte, passa pelos estados teológico, metafísico e positivo.» Verificação: cada tese está agora no autor certo.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Encontre o erro: «Hegel é materialista e defende que a economia explica a história.»

Ver solução

Hegel é idealista: para ele a história é o desenvolvimento da razão, ou do Espírito. Quem explica a história pelas condições materiais e económicas é Marx.

2Exercício 2

Encontre o erro: «A lei dos três estados de Comte diz que o último estado é o metafísico.»

Ver solução

O último estado é o positivo (científico). A ordem é teológico, metafísico, positivo.

3Exercício 3

Corrija: «Nietzsche defende que o forte deve esmagar o fraco, e a vontade de poder é a vontade de dominar os outros.»

Ver solução

Na leitura corrente dos estudiosos, a vontade de poder é a força de afirmação e de superação da própria vida, incluindo a superação de si; não é um programa de violência sobre os outros. O além-homem é quem cria valores e afirma a vida.

4Exercício 4

Explique a diferença entre dizer «Marx foi o fundador dos regimes comunistas» e «Marx criou uma teoria crítica da sociedade capitalista». Qual é a mais rigorosa?

Ver dica

Pense na diferença entre o autor de uma teoria e os políticos que depois a invocaram.

Ver solução

A segunda é a mais rigorosa. Marx escreveu uma análise crítica do capitalismo (alienação, luta de classes, mais-valia). Os regimes do século XX invocaram o marxismo, mas são construções políticas posteriores, com interpretações próprias. Atribuir-lhos como «fundador» confunde teoria e prática histórica.

5Exercício 5

Escreva uma ficha de quatro linhas (problema, tese, conceitos, adversário) sobre Kierkegaard.

Ver solução

Problema: como pode o indivíduo concreto viver a sua existência com sentido? Tese: a existência não cabe em sistemas; cada um tem de escolher e assumir-se. Conceitos: angústia, escolha, estádios estético, ético e religioso, fé. Adversário: o sistema de Hegel.

Perguntas frequentes

Qual é o erro mais comum nos exames?

Trocar o autor e a tese, por exemplo atribuir a luta de classes a Nietzsche. Segue-se a citação de frases sem explicação. Uma ficha por autor reduz muito este risco.

Como me autocorrijo?

Depois de escrever, sublinhe cada tese e pergunte «de quem é?». Confirme com os apontamentos e o manual e rescreva a frase se não tiver certeza. Escrever frases curtas, com sujeito claro («Para Marx…»), ajuda a detetar trocas.

Que exercícios ajudam a evitar estes erros?

Exercícios de «encontrar o erro» e de associar autor, conceito e obra. Também ajuda explicar cada conceito a um colega com as suas próprias palavras, em duas frases, e dar um exemplo.

Posso usar frases famosas nas respostas?

Pode, desde que as explique e as situe. Uma frase sozinha não é resposta; a explicação do contexto e do significado é o que vale pontos.

Resumo

  • Hegel é idealista; Marx aproveita a dialética, mas é materialista.
  • Marx analisa classes, alienação e mais-valia; não se reduz aos regimes que o invocaram.
  • «Deus morreu» é diagnóstico cultural e não prova nem festa.
  • A vontade de poder, em Nietzsche, é afirmação da vida e superação, não domínio violento.
  • Comte: teológico, metafísico, positivo; Kierkegaard critica o sistema hegeliano.
  • Antes de entregar, confirme autor, tese e explicação.

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, e A Gaia Ciência, de Nietzsche, em tradução portuguesa.
  • A Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês), entradas sobre Marx, Nietzsche, Hegel e Kierkegaard.

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