Filosofia · 11.ª–12.ª classe

O que é o criticismo kantiano?

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Resposta curta

O criticismo kantiano é a atitude filosófica de Kant que consiste em examinar a própria razão antes de a usar: que pode ela conhecer, que deve fazer, que lhe é lícito esperar. Posiciona-se entre o dogmatismo, que confia na razão sem a questionar, e o ceticismo, que desconfia dela por completo.

O que é

Immanuel Kant (1724–1804) conta que a leitura de Hume o despertou do «sono dogmático». Até então aceitava, como muitos racionalistas, que a razão podia chegar sozinha a verdades sobre Deus, a alma e o mundo. A dúvida de Hume sobre a causalidade fê-lo perguntar com que direito a razão pretende conhecer tanto.

A palavra «crítica» não significa aqui «dizer mal». Vem do grego krinein, julgar, separar: trata-se de julgar a razão pelo seu próprio tribunal, para distinguir o que ela pode legitimamente afirmar do que ultrapassa os seus poderes.

Três posições em confronto

PosiçãoAtitude perante a razãoExemplo típico
Dogmatismoconfia na razão sem examinar os seus limitesLeibniz, nas provas sobre Deus e a alma
Ceticismoduvida da capacidade da razão para atingir a verdadeHume, quanto à causalidade
Criticismoexamina primeiro as condições e os limites do conhecimentoKant

As três perguntas e as três críticas

Kant resume o interesse da razão em perguntas, e cada uma tem uma obra principal:

  1. Que posso saber? Tratada na Crítica da Razão Pura (1781). Resposta: podemos conhecer os fenómenos, isto é, o que pode aparecer na experiência.
  2. Que devo fazer? Tratada na Crítica da Razão Prática (1788) e na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). Resposta: devo agir por dever, segundo uma lei moral que a razão dá a si própria.
  3. Que me é permitido esperar? Ligada à razão prática e à religião. Resposta: esperar que a virtude e a felicidade possam coincidir, o que leva Kant a admitir, como postulados da razão prática, a liberdade, a imortalidade da alma e Deus.

A Crítica da Faculdade de Julgar (1790) trata do juízo estético e da finalidade na natureza.

O resultado negativo e o positivo

  • Negativo: a razão teórica, quando tenta conhecer Deus, a alma ou o mundo como totalidade, cai em ilusões e em antinomias (por exemplo, é possível «demonstrar» tanto que o mundo teve um início no tempo como que não o teve). Isto mostra que ultrapassou os limites da experiência.
  • Positivo: ao limitar o saber, Kant diz que deixa lugar para a fé e para a moral. Esses temas não ficam provados, mas também não ficam refutados.

Exemplos

Exemplo 1 — A ponte testada

Enunciado: Uma comparação: uma empresa só abre ao público uma ponte depois de testar a carga que suporta. Como ilustra isto o criticismo?

Resolução:

  1. Usar a ponte sem a testar corresponde ao dogmatismo: confiar sem verificar.
  2. Proibir toda a travessia, por receio de que a ponte caia, seria ceticismo.
  3. Testar e indicar a carga máxima permitida corresponde ao criticismo: a razão é testada, e ficam definidos o que suporta e o que não suporta.

Resposta: o criticismo é o exame prévio dos limites da razão. Verificação: a analogia vale apenas para a ideia de exame prévio; a razão, em Kant, examina-se a si própria.

Exemplo 2 — Classificar três atitudes

Enunciado: Três estudantes discutem se é possível provar que Deus existe. A: «Com a razão pura provo-o com certeza.» B: «A razão não prova nada de nada sobre o que está para além do que se vê.» C: «A razão teórica não pode provar nem refutar, mas a moral dá razões práticas para a fé.» Classifique cada atitude.

Resolução:

  1. A confia na razão pura sem limites: dogmatismo.
  2. B nega a possibilidade de qualquer saber que vá além da perceção: aproxima-se do ceticismo.
  3. C reconhece o limite do saber teórico e dá lugar à razão prática: criticismo kantiano.

Resposta: A dogmático, B cético, C crítico. Verificação: só C mostra o exame dos limites seguido de uma abertura à razão prática.

Exemplo 3 — Nível de exame: o tribunal da razão

Enunciado: Explique por que razão Kant diz que a razão deve ser julgada num «tribunal».

Resolução:

  1. Uma disputa sem tribunal não tem juiz: os dogmáticos e os céticos discutem sem fim.
  2. Kant propõe que a razão seja ao mesmo tempo juiz e réu: examina as suas pretensões segundo princípios que ela própria reconhece.
  3. Desse exame resulta uma sentença: válidas as pretensões ao conhecimento dos fenómenos; inválidas as que querem conhecer a coisa em si.

Resposta: o «tribunal da razão» é a imagem do exame crítico que dirime as pretensões legítimas e ilegítimas da razão. Verificação: a resposta refere-se tanto ao método (autoexame) como ao resultado (limites).

Importância

  • Marcou o fim da querela entre racionalistas e empiristas ao integrar o que ambos tinham de válido.
  • Mostrou que a razão tem limites, mas também poderes próprios, sobretudo na moral.
  • Influenciou a ciência, o direito e a ideia de que as instituições devem justificar-se perante a razão pública.
  • Foi o ponto de partida do idealismo alemão.

Erros e confusões frequentes

  • Entender «crítica» como ataque ou rejeição. Em Kant, é exame rigoroso.
  • Dizer que Kant é cético. Aceita que há conhecimento científico válido; limita-o ao fenómeno.
  • Dizer que Kant prova a existência de Deus pela moral. Defende que Deus é um postulado da razão prática, não uma demonstração teórica.
  • Reduzir o criticismo à Crítica da Razão Pura. São três grandes críticas, com as três perguntas.
  • Dizer que o criticismo elimina a metafísica. Elimina a metafísica dogmática que pretende conhecer o que está além da experiência, mas mantém o interesse da razão por esses temas.
  • Confundir criticismo com empirismo. Kant concede muito ao empirismo, mas admite formas a priori.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Defina criticismo kantiano numa frase.

Ver solução

É a atitude filosófica que examina previamente as condições, os poderes e os limites da razão, evitando tanto o dogmatismo como o ceticismo.

2Exercício 2

Associe cada pergunta à obra principal: (1) Que posso saber? (2) Que devo fazer? Obras: Crítica da Razão Prática e Crítica da Razão Pura.

Ver solução

(1) Crítica da Razão Pura; (2) Crítica da Razão Prática (e também a Fundamentação da Metafísica dos Costumes).

3Exercício 3

Diga se é verdadeira ou falsa: «Kant pensa que a razão pura pode demonstrar teoricamente a existência de Deus.» Corrija se necessário.

Ver solução

Falsa. Para Kant, a razão teórica não pode demonstrar nem refutar a existência de Deus, porque Deus ultrapassa a experiência possível. Na filosofia prática, Deus aparece como postulado da razão prática.

4Exercício 4

O que são antinomias da razão pura e que mostram elas?

Ver dica

Pense em duas teses opostas, ambas aparentemente demonstráveis.

Ver solução

São conflitos em que a razão consegue argumentar, com igual aparência de rigor, a favor de duas teses contrárias (por exemplo, que o mundo tem um começo no tempo e que não o tem). Mostram que a razão, quando usa as suas categorias para além da experiência possível, cai em contradições; é um indício de que ultrapassou os seus limites.

5Exercício 5

Compare criticismo e ceticismo em Hume, referindo uma semelhança e uma diferença.

Ver solução

Semelhança: ambos reconhecem que a razão não pode afirmar tudo o que pretendia. Diferença: Hume conclui que a causalidade e outros princípios não têm fundamento racional e dependem do hábito; Kant responde que a causalidade é categoria do entendimento, válida para os fenómenos. Para Kant, limitar o saber não destrói a ciência, fundamenta-a.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre criticismo e dogmatismo?

O dogmatismo aplica a razão sem perguntar o que ela pode e não pode fazer. O criticismo faz essa pergunta primeiro e só depois estabelece o que é legítimo afirmar.

Onde se aplica o criticismo na prática?

Em qualquer situação em que valha a pena perguntar «com que fundamento afirmo isto?», como na leitura crítica de notícias, na análise de argumentos ou na avaliação de uma teoria científica.

Criticismo e idealismo transcendental são a mesma coisa?

Estão ligados. O criticismo é o método e a atitude; o idealismo transcendental é a doutrina que daí resulta, segundo a qual conhecemos os objetos como fenómenos condicionados pelo sujeito.

Que erros os estudantes cometem sobre o criticismo?

Confundem «crítica» com rejeição, tomam Kant por cético e esquecem que as três perguntas correspondem a três domínios (conhecimento, ação, esperança).

Resumo

  • O criticismo é o exame prévio da razão e dos seus limites.
  • Situa-se entre o dogmatismo e o ceticismo.
  • As três perguntas: saber, dever, esperar.
  • A razão teórica limita-se aos fenómenos; as pretensões a conhecer Deus, a alma e o mundo geram antinomias.
  • A razão prática fundamenta a moral e admite postulados (liberdade, imortalidade, Deus).

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Crítica da Razão Pura (prefácios e introdução), de Kant, em tradução portuguesa.
  • A Stanford Encyclopedia of Philosophy (entradas sobre Kant) e a Internet Encyclopedia of Philosophy.

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