Filosofia · 11.ª–12.ª classe

O que é o imperativo categórico?

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  • 3 exemplos resolvidos
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Resposta curta

O imperativo categórico é a lei moral de Kant formulada como uma ordem sem condições: aja apenas segundo uma máxima que possa querer que se torne lei universal, e trate sempre a humanidade, em si e nos outros, como fim e nunca apenas como meio. É o teste que permite saber se uma ação é moralmente permitida.

Imperativo categórico e imperativo hipotético

Um imperativo é uma ordem da razão. Kant distingue dois tipos.

Imperativo hipotéticoImperativo categórico
Forma«Se queres X, faz Y»«Faz Y»
Depende de um desejo?simnão
Exemplo«Se queres passar no exame, estuda.»«Não prometas com intenção de não cumprir.»
Valortécnico ou prudencialmoral

Só o categórico é moral, porque vale para qualquer pessoa racional, quer ela queira quer não. A moral não é um meio para outros fins.

As formulações principais

Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785), Kant apresenta várias fórmulas que considera equivalentes:

  1. Lei universal: «Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.»
  2. Lei da natureza: age como se a máxima da tua ação devesse tornar-se, pela tua vontade, uma lei universal da natureza.
  3. Humanidade como fim em si: «Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio.»
  4. Autonomia / reino dos fins: age de modo a seres, pela tua máxima, legislador de uma comunidade de seres racionais.

Como aplicar o teste da universalização

  1. Formule a máxima: «Em situação S, farei A para obter B.»
  2. Universalize: imagine que todos, em situações semelhantes, agem segundo essa máxima.
  3. Procure contradição: (a) contradição lógica (a máxima destrói-se a si mesma quando universalizada, como no caso da falsa promessa); (b) contradição na vontade (posso conceber o mundo assim, mas não posso querê-lo, porque iria contra o que como ser racional necessariamente quero).
  4. Decida: se há contradição, a ação é proibida; se não há, é permitida.

Exemplos

Exemplo 1 — A promessa falsa

Enunciado: Um estudante precisa de dinheiro e pensa em pedir emprestado prometendo pagar, sabendo que não pagará. Aplique o teste.

Resolução:

  1. Máxima: «Quando preciso de dinheiro, prometo pagar mesmo sabendo que não o farei.»
  2. Universalizada: toda a gente faria promessas que não pretende cumprir.
  3. Resultado: as promessas deixariam de ser acreditadas, e a própria prática de prometer perderia sentido. A máxima destrói-se a si própria.

Resposta: a ação é moralmente proibida (contradição lógica na universalização). Verificação: o engano só resulta porque a maioria cumpre as promessas.

Exemplo 2 — Passar à frente na fila

Enunciado: Numa repartição, um cidadão pensa em pagar um suborno a um funcionário para ser atendido antes dos outros. Analise pelas duas fórmulas.

Resolução:

  1. Lei universal. Máxima: «Quando tenho pressa, pago para passar à frente.» Se todos agissem assim, a fila deixaria de funcionar e a vantagem desapareceria; além disso, o funcionário deixaria de servir por critério justo. A máxima não é universalizável.
  2. Humanidade como fim. Os outros utentes são tratados como obstáculos a contornar, e o funcionário como um meio para o benefício do cidadão.
  3. As duas fórmulas dão a mesma conclusão.

Resposta: a ação é proibida. Verificação: a convergência das fórmulas é um sinal de que a análise está bem feita.

Exemplo 3 — Nível de exame: dever de ajuda

Enunciado: Alguém pensa: «Nunca ajudarei ninguém, porque não preciso de ninguém.» Mostre, segundo Kant, que esta máxima é problemática, mesmo sem contradição lógica.

Resolução:

  1. Universalizada, a máxima descreve um mundo em que ninguém ajuda ninguém. Esse mundo é concebível: a espécie poderia subsistir.
  2. Mas não se pode querer esse mundo: um ser racional sabe que haverá situações em que precisará da ajuda dos outros, e não quereria ser privado dela.
  3. Há, portanto, uma contradição na vontade (e não lógica).

Resposta: a máxima é rejeitada porque ninguém pode querê-la coerentemente como lei universal. Daí resulta um dever imperfeito de ajudar. Verificação: distinguiu-se este caso do da falsa promessa, que é uma contradição lógica.

Importância e limites

  • Dá um critério racional e público para avaliar ações, sem depender de crenças religiosas ou de gostos pessoais.
  • A fórmula da humanidade fundamenta a dignidade da pessoa, base dos direitos humanos.
  • Limites: a formulação da máxima pode ser manipulada (descrever a ação de forma tão específica que passe o teste); e é difícil decidir entre deveres em conflito.

Erros e confusões frequentes

  • Identificá-lo com a regra de ouro («não faças aos outros o que não queres que te façam»). O imperativo de Kant não depende dos gostos de cada um; testa a universalidade da máxima.
  • Entender «categórico» como «severo». Categórico quer dizer apenas que a ordem não depende de nenhum desejo; não diz nada sobre ser mais ou menos duro.
  • Perguntar «e se todos fizessem?» como mera estatística. O que importa é a coerência lógica ou volitiva, e não só o prejuízo.
  • Pensar que a fórmula da humanidade proíbe trabalhar com os outros. Proíbe usar alguém apenas como meio. Contratar um trabalhador a quem se paga e respeita não viola a fórmula.
  • Esquecer que se testa a máxima, e não o ato isolado.
  • Pensar que o imperativo categórico depende das consequências. É um critério formal.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Classifique em hipotético ou categórico: (a) «Se queres emagrecer, come menos açúcar.» (b) «Não mintas.»

Ver solução

(a) Hipotético: depende de um desejo (emagrecer). (b) Categórico: ordena sem condição de desejo.

2Exercício 2

Escreva a primeira fórmula do imperativo categórico (lei universal) por palavras suas.

Ver solução

Só devo agir segundo um princípio que eu possa querer que todos sigam, em situações semelhantes, como lei universal.

3Exercício 3

Aplique o teste da universalização à máxima «copiar nos testes quando não estudei».

Ver dica

Pense no que aconteceria à avaliação se todos copiassem.

Ver solução

Se todos copiassem sempre que não estudassem, o teste deixaria de medir o conhecimento e perderia o seu sentido; a vantagem de quem copia desapareceria. A máxima destrói-se ao ser universalizada, logo é proibida. Pela fórmula da humanidade: copiar trata os colegas honestos e o professor apenas como meios para a nota.

4Exercício 4

Uma empresa promete trabalho a jovens para depois os fazer trabalhar sem pagar. Que fórmula é violada e porquê?

Ver solução

A fórmula da humanidade como fim. Os jovens são usados apenas como meio para o lucro; foram enganados e não podem consentir num projeto que desconhecem. Também falha a lei universal: a máxima «prometer para explorar» destruiria a confiança em qualquer promessa de emprego.

5Exercício 5

Explique a diferença entre contradição lógica e contradição na vontade, com um exemplo de cada.

Ver solução

Na contradição lógica, a máxima universalizada é impossível ou anula-se a si mesma: ex.: a falsa promessa (se todos prometessem sem cumprir, ninguém acreditaria e prometer deixaria de existir). Na contradição na vontade, o mundo universalizado é concebível, mas não pode ser querido por um ser racional: ex.: «nunca ajudar ninguém», pois eu quereria, em algum momento, ser ajudado.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre o imperativo categórico e a regra de ouro?

A regra de ouro parte do que cada um gostaria que lhe fizessem, o que varia de pessoa para pessoa. O imperativo categórico pergunta se a máxima pode ser querida por qualquer ser racional como lei universal, e por isso não depende de preferências.

Onde se aplica o imperativo categórico na prática?

Em decisões em que se tentam abrir exceções a regras que se exigem aos outros: mentir, copiar, furar uma fila ou não cumprir uma promessa. Serve para perguntar se a exceção seria aceitável para todos.

As várias fórmulas são realmente a mesma coisa?

Kant diz que são três ou quatro maneiras de expressar a mesma lei. Alguns comentadores consideram que têm ênfases diferentes, mas em geral conduzem a conclusões semelhantes.

Que erros os estudantes cometem sobre o imperativo categórico?

Equiparam-no à regra de ouro, esquecem que se testa a máxima e tratam-no como uma lista de proibições em vez de um critério.

Resumo

  • É uma ordem sem condições, ao contrário do imperativo hipotético.
  • Lei universal: age segundo uma máxima que possas querer como lei para todos.
  • Humanidade: trata as pessoas como fim, nunca apenas como meio.
  • Teste: formular a máxima, universalizar, procurar contradição (lógica ou na vontade).
  • Não é a regra de ouro nem depende das consequências.

Onde aprofundar

  • O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Fundamentação da Metafísica dos Costumes (segunda secção), de Kant, em tradução portuguesa.
  • A Stanford Encyclopedia of Philosophy (entrada sobre o imperativo categórico) e a Internet Encyclopedia of Philosophy.

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