Filosofia · 11.ª–12.ª classe
O que é a revolução copernicana de Kant?
Resposta curta
A revolução copernicana de Kant é a mudança de perspetiva segundo a qual não é o nosso conhecimento que se regula pelos objetos, mas os objetos, enquanto os conhecemos, que se regulam pelas estruturas do sujeito. Conhecemos as coisas como fenómenos, moldados pelo espaço, pelo tempo e pelas categorias, e não como são em si mesmas.
Contexto: o problema que Kant quer resolver
Immanuel Kant (1724–1804) viveu em Königsberg e publicou a Crítica da Razão Pura em 1781 (segunda edição em 1787). Tinha diante de si duas tradições em conflito:
- o racionalismo (Descartes, Leibniz), que confiava na razão pura mas arriscava-se a construir sistemas sem controlo da experiência;
- o empirismo (Locke, Hume), que fazia depender tudo da experiência mas, com Hume, deixava sem fundamento a ciência da natureza, por exemplo a causalidade.
A pergunta de Kant é: como são possíveis juízos que alargam o nosso saber e, ao mesmo tempo, são universais e necessários? A matemática e a física de Newton pareciam ter esse tipo de saber. Kant chama-lhes juízos sintéticos a priori.
Em que consiste a «revolução»
No prefácio à segunda edição da Crítica, Kant compara o seu projeto ao de Copérnico. Este astrónomo, ao ver que não conseguia explicar os movimentos dos astros supondo que todos giravam à volta do observador, tentou o contrário: pôs o observador em movimento. Kant propõe uma inversão semelhante na teoria do conhecimento.
| Hipótese tradicional | Hipótese de Kant | |
|---|---|---|
| Quem se regula por quem | o sujeito regula-se pelo objeto | o objeto (como aparece) regula-se pelo sujeito |
| O sujeito é | receptor passivo | contribui ativamente com formas próprias |
| O que conhecemos | as coisas como são em si | as coisas como nos aparecem (fenómenos) |
O que o sujeito põe de seu
- Sensibilidade: recebe as impressões através de duas formas a priori, o espaço (para o que é exterior) e o tempo (para tudo o que se passa em nós e fora de nós).
- Entendimento: organiza o que a sensibilidade fornece com categorias (substância, causa, unidade, pluralidade, etc.), que são conceitos puros do entendimento.
- Síntese: do encontro entre intuições e conceitos nasce o conhecimento. Kant resume: sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado; sem entendimento nenhum seria pensado. «Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas.»
Fenómeno e coisa em si
- Fenómeno: a realidade tal como aparece ao sujeito, organizada pelas suas formas. É o objeto possível de conhecimento científico.
- Coisa em si (númeno): a realidade independente das nossas condições de conhecimento. Podemos pensá-la, mas não conhecê-la.
Daqui resulta o limite do conhecimento: a razão teórica não pode demonstrar Deus, a alma imortal ou o mundo como totalidade, porque estes objetos ultrapassam toda a experiência possível.
Exemplos
Exemplo 1 — Os óculos de lentes verdes
Enunciado: Imagine uma pessoa que nunca tira uns óculos com lentes verdes. Como serve esta imagem para explicar a ideia de Kant?
Resolução:
- Tudo o que essa pessoa vê aparece verde, sem que o mundo seja necessariamente verde.
- A cor vem das lentes (o sujeito), e não só do objeto.
- Na teoria de Kant, o «óculos» são o espaço, o tempo e as categorias: não os podemos tirar.
Resposta: o conhecimento é sempre condicionado por formas do sujeito. Verificação: a imagem tem limite, pois em Kant as formas não deformam o mundo: tornam possível a experiência.
Exemplo 2 — Uma mudança no Huambo
Enunciado: Um agricultor do Huambo observa que, após a chuva, o milho cresce. Segundo Kant, de onde vem a ideia de que a chuva é causa desse crescimento?
Resolução:
- A experiência dá-lhe dois acontecimentos em sequência: chuva, depois crescimento.
- A relação «causa e efeito» é uma categoria do entendimento, aplicada pelo sujeito para ordenar os acontecimentos.
- Por isso, a causalidade tem valor universal e necessário dentro da experiência possível, sem ser mero hábito (resposta a Hume).
Resposta: a ideia de causa vem do entendimento, que ordena a experiência; a experiência fornece o conteúdo. Verificação: Kant dá razão a Hume em que a experiência sozinha não dá necessidade, mas acrescenta que a necessidade vem das estruturas do sujeito.
Exemplo 3 — Nível de exame: comparar com o empirismo
Enunciado: Em que sentido a posição de Kant difere da de Locke quanto ao papel do sujeito?
Resolução:
- Para Locke, a mente recebe as ideias da experiência e é, no início, uma folha em branco.
- Para Kant, a mente tem formas a priori (espaço, tempo, categorias) que condicionam a experiência.
- Kant não defende ideias inatas com conteúdo; defende condições formais do conhecimento.
Resposta: em Locke o sujeito é predominantemente recetivo; em Kant é ativo e estruturante. Verificação: o conteúdo vem da experiência, a forma vem do sujeito.
Importância
- Fundou o criticismo, que examina os poderes e os limites da razão.
- Mostrou que a ciência é possível, mas limitada ao fenómeno.
- Abriu caminho ao idealismo alemão (Fichte, Schelling, Hegel), que discute o papel do sujeito e a coisa em si.
- Influenciou a epistemologia, a psicologia cognitiva e a filosofia da ciência modernas.
Erros e confusões frequentes
- Pensar que Kant fala de astronomia. A comparação com Copérnico é metafórica: refere-se à inversão do ponto de vista.
- Dizer que o fenómeno é uma ilusão. É a realidade tal como pode ser conhecida; é objetiva dentro da experiência.
- Identificar «a priori» com «inato». A priori significa anterior e independente da experiência quanto à validade; não é uma ideia pronta à nascença.
- Dizer que Kant nega a existência da coisa em si. Admite-a como conceito-limite; apenas afirma que não a podemos conhecer.
- Atribuir a Kant o relativismo («cada um tem a sua verdade»). As formas do sujeito são comuns a todos os seres racionais.
- Confundir revolução copernicana com o heliocentrismo. O heliocentrismo é uma teoria astronómica; a revolução kantiana é uma tese sobre o conhecimento.
Exercícios propostos
1Exercício 1
Complete: na revolução copernicana de Kant, o objeto de conhecimento regula-se pelas condições do ___ e não o contrário.
Ver solução
sujeito (as suas formas a priori: espaço, tempo e categorias).
2Exercício 2
Diga o que são fenómeno e coisa em si, e qual deles podemos conhecer.
Ver solução
Fenómeno é a realidade tal como nos aparece, estruturada pelas formas do sujeito; podemos conhecê-lo. Coisa em si é a realidade independente das condições do nosso conhecimento; podemos pensá-la, mas não conhecê-la.
3Exercício 3
Escolha a opção correta. Para Kant, o espaço e o tempo são: (a) propriedades das coisas em si (b) formas a priori da sensibilidade (c) ideias retiradas da experiência repetida (d) categorias do entendimento
Ver solução
(b). O espaço e o tempo são formas a priori da sensibilidade. As categorias, como a causalidade, pertencem ao entendimento.
4Exercício 4
Explique a frase «Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas.»
Ver dica
Relacione sensibilidade, entendimento, conceitos e intuições.
Ver solução
O conhecimento exige dois elementos. As intuições (dadas pela sensibilidade) são o conteúdo; os conceitos (do entendimento) dão-lhes forma. Conceitos sem intuições ficam vazios, porque não têm objeto; intuições sem conceitos ficam cegas, porque não são compreendidas nem ordenadas. Daí que o conhecimento resulte da cooperação das duas faculdades.
5Exercício 5
Em que sentido a revolução copernicana é uma resposta ao problema de Hume sobre a causalidade?
Ver solução
Hume dizia que a ideia de causa se explica pelo hábito e que não há fundamento racional para a necessidade. Kant responde que a causalidade é uma categoria do entendimento: o sujeito aplica-a para organizar a experiência. Assim, a causalidade tem validade universal e necessária para os fenómenos, sem depender só do hábito, embora não se estenda à coisa em si.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre a revolução copernicana de Kant e o heliocentrismo?
O heliocentrismo é uma teoria sobre o movimento dos astros: a Terra gira à volta do Sol. A revolução copernicana de Kant é uma tese filosófica: o conhecimento depende das estruturas do sujeito. Kant só usa Copérnico como comparação.
Onde se aplica a revolução copernicana na prática?
Ajuda a perceber por que razão a observação científica depende de teorias e conceitos prévios, e por que a mesma realidade pode ser descrita de maneiras diferentes consoante os instrumentos e as categorias usados.
Kant é racionalista ou empirista?
Nenhum dos dois em exclusivo. Aceita do empirismo que todo o conhecimento começa com a experiência, e do racionalismo que nem tudo deriva dela, pois o sujeito fornece formas a priori.
Porque é que não podemos conhecer a coisa em si?
Porque conhecer, para Kant, é sempre aplicar formas de sensibilidade e categorias de entendimento. Ao tentar chegar ao que está para lá dessas condições, ficamos sem critério de verificação.
Resumo
- Kant inverte a ordem tradicional: os objetos regulam-se pelo sujeito, não o contrário.
- A experiência combina conteúdo (sensibilidade) e forma (espaço, tempo, categorias).
- Conhecemos fenómenos; a coisa em si pensa-se, mas não se conhece.
- Responde a Hume: a causalidade é categoria do entendimento.
- Funda o criticismo e prepara o idealismo alemão.
Onde aprofundar
- O manual de Filosofia da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
- Crítica da Razão Pura, de Kant (prefácio à segunda edição), em tradução portuguesa.
- A Stanford Encyclopedia of Philosophy (entrada sobre Kant) e a Internet Encyclopedia of Philosophy.
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