Língua Portuguesa · 3.ª–12.ª classe

Como fazer inferências na leitura?

  • 10 min de leitura
  • 4 exemplos resolvidos
  • 5 exercícios com solução
  • Atualizado em

Resposta curta

Fazer uma inferência é concluir algo que o texto não diz de forma explícita, combinando as pistas que o texto dá com o que você já sabe sobre o mundo. Identifique as pistas (palavras, gestos, tom), pergunte «o que sugerem?», formule uma conclusão e confirme que ela é apoiada pelo texto e que nenhuma pista a contradiz.

Quando se aplica

As inferências são pedidas quando uma pergunta de interpretação começa por «Porquê?», «O que sugere…?», «Que sentimento revela…?» ou «O que se pode concluir…?» e a resposta não está escrita. Também servem para perceber ironias, descobrir o sentido de palavras desconhecidas e antecipar o que vai acontecer numa história.

A ideia fundamental é esta fórmula:

pistas do texto + conhecimento prévio = inferência

Os tipos de inferência mais comuns:

TipoO que se concluiExemplo
Causaporque aconteceu«Chegou encharcado» → choveu ou apanhou chuva
Consequênciao que vai acontecer«Esqueceu a chave dentro de casa» → vai ter dificuldade em entrar
Sentimentoo que sente a personagem«Roía as unhas» → ansiedade
Intençãoo que pretende«Falou baixinho ao ouvido» → quer que mais ninguém ouça
Sentido de uma palavrao que significa pelo contexto«Estava exausto, mal conseguia manter-se de pé» → muito cansado
Ironiao contrário do que se diz«Que pontualidade!» (a quem chegou tarde)

Inferir não é adivinhar nem opinar. Uma inferência tem sempre uma prova no texto. Sem pista, é palpite.

Pré-requisitos: leitura atenta do vocabulário e da pontuação, e conhecimento do quotidiano que o texto pressupõe (o que é uma sala de espera, o que significa chegar encharcado).

Método passo a passo

  1. Separe o que está dito do que não está. Pergunte: o texto diz isto expressamente?
  2. Sublinhe as pistas: verbos de ação, adjetivos, gestos, expressões do corpo, pontuação (reticências, exclamações), contrastes introduzidos por «mas».
  3. Ative o que sabe: em situações como esta, o que costuma acontecer? Como se sente quem faz isto?
  4. Formule uma hipótese numa frase completa.
  5. Teste a hipótese contra todas as pistas: alguma a contradiz? Há uma explicação melhor?
  6. Justifique na resposta, usando: «Infere-se que… porque o texto diz que…».

Dica

Se tem uma hipótese, mas só uma pista a apoia, procure uma segunda. Boas inferências costumam ter, pelo menos, duas pistas a apontar no mesmo sentido.

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — Sentimento (nível básico)

Enunciado: Leia: «O Mateus olhou pela terceira vez para o relógio e começou a arrumar o material antes de o professor acabar de falar.» O que sente o Mateus?

Resolução:

  1. O texto não nomeia nenhum sentimento.
  2. Pistas: «pela terceira vez» (repetição) e «começou a arrumar antes de o professor acabar» (antecipação).
  3. Conhecimento prévio: quem olha o relógio várias vezes e se prepara para sair quer que o tempo passe depressa.
  4. Hipótese: está impaciente por a aula acabar.
  5. Teste: as duas pistas apoiam e nenhuma contradiz. O texto não explica a razão (pode ter um compromisso), por isso não se afirma nada sobre ela.

Resposta: Infere-se que o Mateus está impaciente com o fim da aula, porque olha repetidamente para o relógio e arruma o material antes de o professor terminar. Verificação: a resposta usa duas pistas e não inventa o motivo.

Exemplo 2 — Causa e emoção

Enunciado: Leia: «Quando chegou a casa, a Elsa encontrou a porta aberta, as luzes apagadas e um silêncio estranho. Ficou parada no corredor, sem acender a luz.» Porque é que a Elsa não acendeu a luz?

Resolução:

  1. O texto não explica a atitude da Elsa. É uma inferência de causa.
  2. Pistas: porta aberta (algo fora do normal), luzes apagadas, «silêncio estranho», «ficou parada».
  3. Conhecimento prévio: perante uma situação inesperada e possivelmente perigosa, as pessoas ficam imóveis e alerta, tentando perceber o que se passa.
  4. Hipótese: receou que houvesse alguém ou algo errado em casa.

Resposta: Infere-se que a Elsa estava com receio, porque a porta aberta, as luzes apagadas e o «silêncio estranho» indicavam que algo não estava normal, e por isso ficou parada em vez de acender a luz. Verificação: quatro pistas apoiam a conclusão e o texto não contradiz.

Exemplo 3 — Sentido de uma palavra pelo contexto

Enunciado: Leia: «O professor, que era muito lacónico, respondeu apenas não. Os alunos esperavam uma explicação, mas ele voltou a escrever no quadro.» Que quer dizer «lacónico»?

Resolução:

  1. Procure o que o professor faz: respondeu apenas não e não explicou.
  2. O contexto mostra que os alunos esperavam mais palavras e não as receberam.
  3. A palavra desconhecida deve resumir esse comportamento.

Resposta: «Lacónico» significa que fala pouco, que se exprime em poucas palavras. Verificação: substituindo «lacónico» por «de poucas palavras», a frase mantém o sentido.

Exemplo 4 — Ironia (nível de exame)

Enunciado: Leia: «O autocarro chegou com apenas quarenta minutos de atraso. Que pontualidade admirável!» Qual é a atitude do narrador?

Resolução:

  1. Em sentido literal, «pontualidade admirável» é um elogio.
  2. Mas o contexto contradiz o elogio: quarenta minutos de atraso não são pontualidade.
  3. O advérbio «apenas» é também irónico: faz de conta que quarenta minutos é pouco.
  4. Quando as palavras dizem o contrário do que os factos mostram, há ironia.

Resposta: O narrador está a ser irónico: finge elogiar a pontualidade para criticar o atraso do autocarro. Verificação: o elogio só faz sentido lido ao contrário, e os dois sinais («apenas» e «admirável») apontam para a crítica.

Erros frequentes

  • Inventar sem pista. Dizer que o Mateus tem um dentista marcado é uma suposição, não uma inferência, porque o texto não o sugere.
  • Contradizer o texto. Se a personagem «sorriu», não se pode inferir que estava zangada sem outra pista que o explique.
  • Copiar o texto em vez de concluir. A inferência diz algo novo que o texto sugere.
  • Parar na primeira hipótese sem a testar com as outras pistas.
  • Confundir inferência com opinião. «Acho que ele devia ter ficado» é opinião; «Infere-se que está impaciente» tem prova.
  • Não justificar. Resposta sem pista é resposta incompleta.
  • Ler ironia à letra, como se o elogio fosse sincero.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Leia: «O Tomás chegou à escola com o casaco encharcado e os cabelos a pingar.» O que se pode inferir? Indique as pistas.

Ver solução

Infere-se que choveu (ou que o Tomás apanhou chuva) no caminho. Pistas: «casaco encharcado» e «cabelos a pingar». Não se pode afirmar que ele não levou guarda-chuva: o texto não o diz.

2Exercício 2

Leia: «A Aida contou duas vezes as notas da carteira e voltou a pousar o telemóvel na prateleira da loja.» O que se infere?

Ver dica

Pense no que significa contar o dinheiro duas vezes antes de decidir.

Ver solução

Infere-se que a Aida não tinha dinheiro suficiente para comprar o telemóvel (ou que o preço era superior ao que podia gastar). Pistas: contou o dinheiro duas vezes e depois pousou o aparelho. A conclusão é provável, mas o texto não indica os valores.

3Exercício 3

Leia: «Só quando a bola bateu na trave, o treinador voltou a sentar-se.» O que se infere? (a) O treinador estava de pé, tenso. (b) O treinador estava a dormir. (c) O treinador não gostava de futebol.

Ver solução

(a). «Voltou a sentar-se» mostra que antes estava de pé, e a bola na trave (quase golo) explica o momento de tensão. (b) e (c) não têm qualquer pista no texto.

4Exercício 4

Leia: «Naquele dia de pouco movimento, o vendedor, ocioso, dormitava ao lado da banca.» Que significa «ocioso»?

Ver solução

Sem ocupação, parado, sem trabalho para fazer. O contexto mostra-o: «pouco movimento» (não há clientes) e «dormitava» (não está ocupado).

5Exercício 5

Leia: «Quando soube da notícia, a avó não chorou nem gritou. Alisou a toalha da mesa, mudou o jarro de lugar e pediu a todos que se sentassem.» (a) Que se infere sobre a reação da avó? (b) Que gestos o mostram? (c) O que se pode afirmar sobre a notícia?

Ver dica

Repare no contraste entre o que ela não faz e o que faz.

Ver solução

(a) A avó tenta manter a calma e esconder a emoção; a notícia é importante. (b) Os gestos domésticos e controlados (alisar a toalha, mudar o jarro) e o pedido para todos se sentarem. (c) Que é séria ou importante, porque ela quer a família reunida e sentada; mas o texto não revela se é boa ou má, pelo que não se deve afirmar mais do que isso.

Perguntas frequentes

Inferir é o mesmo que adivinhar?

Não. Adivinhar é supor sem prova; inferir é concluir a partir de pistas que estão no texto. Se numa resposta não consegue apontar a pista, tem um palpite, não uma inferência.

Quantas inferências é possível fazer num texto?

Muitas: sobre sentimentos, causas, intenções, tempo e lugar. Nos testes, cada pergunta pede uma ou duas. Concentre-se na que a pergunta pede e justifique com as pistas mais claras.

Existe um método mais rápido?

Use o esquema de três palavras: «texto» (qual é a pista?), «eu» (o que sei sobre isto?) e «conclusão». Se conseguir completar as três, a inferência está pronta; se faltar a primeira, falta prova.

Como escrevo a resposta?

Comece com «Infere-se que…» ou «O texto sugere que…», diga a conclusão e junte «porque» e a pista, entre aspas se a citar. A conclusão sem pista perde pontos; a pista sem conclusão fica incompleta.

Resumo

  • Inferir é concluir o que o texto sugere: pistas do texto + conhecimento prévio.
  • Há inferências de causa, consequência, sentimento, intenção, sentido de palavra e ironia.
  • Teste a hipótese contra todas as pistas e rejeite as que o texto contradiz.
  • Justifique sempre: «Infere-se que… porque o texto diz que…».
  • Não invente, não copie o texto e não confunda a inferência com a sua opinião.

Onde aprofundar

  • O manual de Língua Portuguesa da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, para o valor expressivo dos advérbios e da pontuação.
  • O dicionário Priberam e o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, para confirmar o sentido de palavras inferidas pelo contexto.

Continue a estudar

3.ª–12.ª classe9 min

Como responder a perguntas de interpretação de texto?

Leia o texto, leia a pergunta com atenção e identifique o verbo de comando (indique, explique, justifique, transcreva…) e o que ele pede. Localize a passagem no texto…

4 exemplos5 exercícios com solução

3.ª–12.ª classe10 min

Como interpretar um texto?

Para interpretar um texto, leia-o por inteiro, identifique o assunto, o tipo de texto e as ideias principais e responda em três níveis: o que o texto diz (leitura…

3 exemplos5 exercícios com solução

3.ª–12.ª classe11 min

Como encontrar a ideia principal de um texto?

A ideia principal é a mensagem mais importante que o autor quer transmitir num parágrafo ou num texto, aquela sem a qual o texto perde o sentido. Para a encontrar…

4 exemplos5 exercícios com solução

3.ª–12.ª classe11 min

Como identificar o tema e o assunto de um texto?

O assunto é aquilo de que o texto fala, dito em poucas palavras; o tema é o aspeto concreto desse assunto que o autor desenvolve. Para os identificar, leia o título…

4 exemplos5 exercícios com solução

Ver tudo de Língua Portuguesa · Capítulo: Compreensão e interpretação de texto