Língua Portuguesa · 3.ª–12.ª classe
Como interpretar um texto?
Resposta curta
Para interpretar um texto, leia-o por inteiro, identifique o assunto, o tipo de texto e as ideias principais e responda em três níveis: o que o texto diz (leitura literal), o que sugere sem dizer (inferência) e o que você pensa sobre ele (leitura crítica). Cada resposta tem de ser justificada com palavras ou ideias do próprio texto.
Quando se aplica
Interpretar é a tarefa central dos testes de leitura e dos exames de Língua Portuguesa, mas também serve fora da escola: perceber uma notícia, um contrato, uma carta ou uma mensagem. Quem interpreta bem não se limita a repetir o texto; mostra que o compreendeu.
As perguntas de um teste costumam pertencer a um de três níveis:
| Nível | Pergunta típica | Onde está a resposta | Verbos habituais |
|---|---|---|---|
| Literal | Quem? O quê? Quando? Onde? | escrita no texto | indique, identifique, transcreva |
| Inferencial | Porquê? O que sugere? O que sente? | nas entrelinhas, a partir de pistas | explique, justifique, deduza |
| Crítico | Concorda? Que opinião tem? | em si, mas apoiada no texto | comente, aprecie, posicione-se |
Pré-requisitos: vocabulário razoável, atenção à pontuação (as reticências e os dois pontos mudam o sentido) e noção dos tipos de texto (narrativo, informativo, de opinião, poético).
Método passo a passo
- Pré-leitura: observe o título, o autor, a fonte e a extensão. O título costuma dar pistas sobre o assunto.
- Leitura global, sem parar, só para perceber o que se passa.
- Releitura por partes: em cada parágrafo, anote a ideia e sublinhe as palavras que não conhece. Tente deduzir o seu sentido pelo contexto antes de consultar o dicionário.
- Identifique o assunto, a ideia principal e, conforme o texto, as personagens, o tempo, o lugar ou a posição do autor.
- Leia as perguntas e classifique cada uma num dos três níveis.
- Volte ao texto e localize a passagem que sustenta a resposta; anote o parágrafo ou a linha.
- Responda com frases completas, justificando com um excerto, e releia para confirmar que respondeu ao que foi perguntado.
Dica
Antes de escrever uma resposta, complete mentalmente: «Penso isto porque o texto diz…». Se não consegue acabar a frase, a resposta ainda não está pronta.
Exemplos resolvidos
Exemplo 1 — Leitura literal e inferencial (nível básico)
Enunciado: Leia o texto: «A Joana chegou ao mercado antes de o sol nascer. Montou a banca de legumes, arrumou os tomates por tamanho e limpou as mãos a um pano já desbotado. Quando o primeiro cliente se aproximou, sorriu, mas os olhos continuavam a procurar a rua. O irmão tinha prometido ajudá-la e ainda não aparecera.» (a) Quando chegou a Joana ao mercado? (b) O que sentia a Joana quando sorriu ao cliente?
Resolução:
- A pergunta (a) é literal: a resposta está escrita. Localizamos a primeira frase.
- A pergunta (b) é inferencial: o texto não nomeia o sentimento. Procuramos as pistas: «sorriu, mas»; «os olhos continuavam a procurar a rua»; o irmão «ainda não aparecera».
- Raciocínio: o «mas» mostra contraste; procurar a rua sugere que espera alguém; a causa está na promessa do irmão.
Resposta: (a) A Joana chegou ao mercado «antes de o sol nascer». (b) A Joana sentia preocupação (ou ansiedade): sorriu por cortesia, mas continuava a olhar para a rua à espera do irmão, que ainda não tinha chegado. Verificação: a resposta (b) usa três pistas do texto e nenhuma contradiz a conclusão.
Exemplo 2 — Leitura crítica
Enunciado: Com base no texto do exemplo anterior, responda: «Concorda que o irmão deveria ter cumprido a promessa? Justifique.»
Resolução:
- É uma pergunta de nível crítico: pede opinião, mas apoiada no texto.
- Escolher uma posição: sim, devia ter cumprido.
- Procurar a razão no texto: ele «tinha prometido ajudá-la»; a Joana trabalha sozinha na banca desde antes do nascer do sol.
- Admitir, se quiser, a hipótese contrária: o texto não diz porque ele se atrasou.
Resposta: «Concordo, porque o irmão prometeu ajudar e a Joana já estava a trabalhar sozinha, e uma promessa cria uma expectativa. No entanto, o texto não explica o atraso, pelo que ele pode ter tido um motivo sério.» Verificação: a opinião aparece junto de um argumento tirado do texto e a resposta não inventa factos sobre o irmão.
Exemplo 3 — Texto de opinião (nível de exame)
Enunciado: Leia o texto: «Há quem diga que os jovens já não leem. Não é verdade: leem mensagens, legendas, notícias no telemóvel, centenas de linhas por dia. O que talvez já não leiam é aquilo que exige paciência. E a paciência perde-se quando nada nos obriga a esperar.» (a) Qual é a posição do autor? (b) Que valor tem «talvez»? (c) Explique a última frase.
Resolução:
- (a) O autor começa por citar uma opinião alheia («Há quem diga…») e rejeita-a («Não é verdade»). Depois nuança: leem muito, mas textos curtos.
- (b) «Talvez» é um advérbio de dúvida: o autor não garante, apresenta uma hipótese. Mostra cautela.
- (c) A paciência treina-se a esperar; se tudo é imediato, deixa de ser treinada; sem paciência, é difícil ler textos longos.
Resposta: (a) O autor contesta a ideia de que os jovens não leem: leem muito, embora provavelmente textos curtos. (b) «Talvez» exprime dúvida e torna a afirmação uma hipótese. (c) Quando tudo é rápido e ninguém precisa de esperar, a paciência diminui, e com ela a capacidade de ler o que é longo. Verificação: cada resposta retoma uma expressão do texto («Não é verdade», «talvez», «esperar»).
Erros frequentes
- Responder com o que já sabe, sem voltar ao texto. A interpretação é do texto, não do tema em geral.
- Copiar o parágrafo inteiro em vez de selecionar o excerto que prova a resposta.
- Confundir o que o texto diz com o que sugere: se a pergunta pede «porquê?» e o texto não o diz, é inferência, e precisa de pistas.
- Dar opinião quando se pede informação, ou o contrário.
- Inventar pormenores (nomes, motivos, factos) que o texto não refere.
- Ignorar o título e a pontuação, que muitas vezes orientam a leitura.
- Responder com palavras soltas («Sim.», «Triste.») em vez de frases completas com justificação.
Exercícios propostos
1Exercício 1
Classifique cada pergunta como literal, inferencial ou crítica: (a) «Onde decorre a ação?» (b) «Que sentimento revela a frase final?» (c) «Concorda com a atitude da personagem? Justifique.» (d) «Quem acompanhava a avó?»
Ver solução
(a) Literal. (b) Inferencial, porque pede um sentimento que o texto sugere. (c) Crítica, porque pede opinião fundamentada. (d) Literal, porque a resposta está escrita no texto.
2Exercício 2
Leia: «O Paulo olhou para a nota do teste, dobrou a folha em quatro e guardou-a no fundo da mochila sem dizer nada à mãe.» O que se pode inferir sobre a nota?
Ver dica
Pergunte-se por que razão alguém esconderia uma folha.
Ver solução
Infere-se que a nota foi má ou que o Paulo receia a reação da mãe. Pistas: dobrou a folha em quatro, guardou-a no fundo da mochila e não disse nada. O texto não indica o valor da nota; é uma inferência, não um facto.
3Exercício 3
Leia: «A estrada, esburacada e deserta, era um convite ao desânimo.» (a) Que significa «esburacada»? (b) Explique a expressão «convite ao desânimo».
Ver solução
(a) «Esburacada» é uma estrada com muitos buracos, em mau estado. (b) A expressão é figurada: a estrada, pelo mau estado e pela solidão, desmotivava quem a ia percorrer, como se o convidasse a desistir.
4Exercício 4
Pergunta: «Porque é que o Paulo escondeu a nota?» (texto do exercício 2). Resposta de um aluno: «Porque o Paulo guardou a nota na mochila.» Diga o que está errado e reescreva.
Ver solução
A resposta repete o texto em vez de explicar a razão, que é o que a pergunta pede. Versão correta: «O Paulo escondeu a nota provavelmente porque era má e tinha receio da reação da mãe, como mostram os gestos de dobrar a folha e guardá-la no fundo da mochila sem dizer nada.»
5Exercício 5
Leia: «Quando a luz falhou, o bairro inteiro ficou às escuras. Na rua, as crianças riam e inventavam histórias à luz das velas; dentro das casas, os adultos faziam contas ao que se estragaria no frigorífico. Ninguém falou do assunto, mas todos olhavam para o poste, à espera.» (a) Que contraste se observa entre crianças e adultos? (b) Explique «Ninguém falou do assunto, mas todos olhavam para o poste». (c) Proponha um título.
Ver dica
Compare o que cada grupo faz e o que cada grupo sente.
Ver solução
(a) As crianças divertem-se com a falta de luz; os adultos preocupam-se com as consequências (alimentos estragados). (b) Ninguém diz nada, mas o olhar de todos para o poste mostra a mesma ansiedade e a espera de que a luz volte. (c) Respostas possíveis: «À espera da luz» ou «Quando a luz falhou». Qualquer título que reflita a espera e o contraste é válido.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre ler e interpretar um texto?
Ler é decifrar as palavras e perceber o que está escrito; interpretar é dar sentido ao conjunto: descobrir ideias implícitas, relacionar partes, perceber a intenção e formar uma opinião justificada. Pode ler-se sem interpretar, mas não o contrário.
Tenho de ler o texto mais do que uma vez?
Sim, pelo menos duas: uma leitura global para perceber o conjunto e outra por partes, com a caneta na mão. Em exame, com pouco tempo, uma terceira leitura rápida só das passagens que sustentam cada resposta costuma bastar.
Existe um método mais rápido?
Alguns estudantes preferem ler as perguntas antes do texto, para saber o que procurar. Teste nos exercícios se lhe resulta: a vantagem é a leitura mais dirigida; o perigo é ler só à procura de respostas e perder o sentido geral.
Posso dar a minha opinião em qualquer pergunta?
Só quando a pergunta pede (nível crítico). Nas perguntas literais e inferenciais a resposta tem de vir do texto. Mesmo nas críticas, a opinião deve ter um argumento retirado do texto.
Resumo
- Interpretar é compreender o que o texto diz, o que sugere e o que o leitor pensa dele.
- Os três níveis são: literal, inferencial e crítico; identifique o nível antes de responder.
- Método: pré-leitura, leitura global, releitura por partes, perguntas, regresso ao texto, resposta justificada.
- Justifique sempre com um excerto ou uma ideia do próprio texto.
- Evite copiar parágrafos, inventar pormenores e responder com palavras soltas.
Onde aprofundar
- O manual de Língua Portuguesa da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
- Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, para o valor de advérbios, conectores e pontuação.
- O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, para esclarecer dúvidas sobre o sentido e o uso de palavras e expressões.
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