Língua Portuguesa · 3.ª–12.ª classe
Como identificar a intenção do autor?
Resposta curta
A intenção do autor é o objetivo com que escreveu o texto: informar, convencer, divertir, criticar, ensinar, alertar ou emocionar. Descobre-se observando quem escreve, para quem e em que tipo de texto, depois as marcas de linguagem (imperativo, adjetivos de opinião, factos e dados, ironia) e perguntando: «o que quer o autor que o leitor saiba, sinta ou faça?»
Quando se aplica
Perguntas como «Qual é a intenção comunicativa do texto?», «Com que objetivo escreveu o autor?» ou «Que efeito pretende produzir no leitor?» aparecem em testes de interpretação. Além da escola, saber ler a intenção é uma defesa contra publicidade enganadora e contra textos que se fazem passar por informação quando só querem convencer.
Cuidado para não confundir três ideias vizinhas: o tema é de que fala o texto; a ideia principal é o que o texto afirma; a intenção é para que o autor escreveu.
| Intenção | Marcas habituais | Tipo de texto frequente |
|---|---|---|
| Informar | linguagem objetiva, factos, datas, terceira pessoa | notícia, enciclopédia, relatório |
| Convencer | argumentos, adjetivos de opinião, perguntas retóricas | artigo de opinião, discurso |
| Levar a agir ou a comprar | imperativo, segunda pessoa, slogan, ofertas | publicidade, cartaz de campanha |
| Ensinar / instruir | passos, verbos no imperativo ou infinitivo | receita, manual de instruções |
| Divertir | humor, exagero, jogo de palavras | anedota, crónica humorística |
| Criticar | ironia, contraste, adjetivos negativos | caricatura, crónica |
| Alertar | imperativo negativo, expressões de urgência | aviso, campanha de prevenção |
| Emocionar / exprimir sentimentos | primeira pessoa, imagens, metáforas | poema, carta pessoal, diário |
As funções da linguagem ajudam a nomear a intenção: referencial (informar sobre a realidade), emotiva ou expressiva (exprimir sentimentos do emissor), apelativa ou conativa (influenciar o recetor, por exemplo com imperativos), poética (valorizar a forma da mensagem), fática (manter o contacto) e metalinguística (falar da própria língua). Confirme a terminologia no seu manual.
Método passo a passo
- Identifique quem escreve, para quem e onde: tipo de texto, suporte (jornal, cartaz, carta), destinatário.
- Leia o título e o primeiro e o último parágrafos, onde o autor costuma deixar pistas.
- Procure marcas na linguagem: a pessoa gramatical (eu, tu/você, ele); o modo verbal (imperativo = apelo, indicativo = informação); os adjetivos e advérbios de opinião (absurdo, admirável); a pontuação expressiva (exclamações, interrogações retóricas); as figuras de estilo, como a ironia ou o exagero.
- Pergunte: o que quer o autor que o leitor saiba, sinta ou faça?
- Formule com um verbo no infinitivo: «A intenção do autor é convencer os leitores a…».
- Justifique com pelo menos uma marca do texto.
- Verifique se há uma intenção secundária (por exemplo, divertir para convencer).
Dica
A pergunta decisiva é «o que acontece ao leitor se o texto resultar?». Se ficar a saber algo, é informar; se for comprar, é persuadir; se for rir, é divertir; se for mudar de opinião, é convencer.
Exemplos resolvidos
Exemplo 1 — Um anúncio
Enunciado: Identifique a intenção: «Venha à Padaria Dona Rosa! Pão quentinho todas as manhãs, a preço de sempre. Experimente hoje e leve o segundo pão por metade do preço!»
Resolução:
- Tipo de texto: anúncio de comércio.
- Marcas: imperativos («Venha», «Experimente», «leve»), exclamações, vantagem apresentada («a preço de sempre», «metade do preço»).
- Destinatário: o cliente, tratado diretamente.
- O que se quer do leitor: que vá à padaria e compre.
Resposta: A intenção é persuadir o público a comprar na padaria. Predomina a função apelativa. Verificação: três imperativos e uma promoção apontam para o apelo à ação.
Exemplo 2 — Notícia e opinião sobre o mesmo facto
Enunciado: Compare a intenção dos dois textos. Texto A: «A direção do parque municipal anunciou que o jardim fecha às 20 horas a partir de segunda-feira. A medida foi comunicada ontem.» Texto B: «Fechar o jardim às 20 horas é uma decisão absurda: onde vão passear as famílias depois do jantar?»
Resolução:
- Texto A: terceira pessoa, quem decide (a direção), o quê, quando; nenhum adjetivo de opinião. Intenção: informar.
- Texto B: juízo de valor («absurda») e pergunta retórica (a resposta é óbvia para o autor). Intenção: criticar a decisão e convencer o leitor.
- O facto é o mesmo; a intenção é diferente.
Resposta: A informa de modo objetivo; B critica e procura convencer. Verificação: A só tem factos que se podem verificar; B tem uma avaliação («absurda») que depende do autor.
Exemplo 3 — Ironia (nível de exame)
Enunciado: Qual é a intenção? «Parabéns à turma! Em apenas cinco dias, o pátio ficou coberto de papéis e garrafas. Que exemplo admirável de organização!»
Resolução:
- À letra, o texto elogia: «Parabéns», «admirável», «organização».
- Mas os factos descritos são negativos: papéis e garrafas por todo o pátio.
- Quando o elogio contradiz os factos, há ironia: o autor diz o contrário do que pensa. O advérbio «apenas» reforça o tom.
- Quem usa a ironia quer criticar e fazer o leitor refletir.
Resposta: A intenção é criticar a turma por sujar o pátio, de forma irónica, e levá-la a mudar de comportamento. Verificação: lido à letra, o texto seria um elogio, mas isso contradiz o facto descrito. A leitura irónica é a única coerente.
Exemplo 4 — Exprimir um sentimento
Enunciado: Qual é a intenção? «Faz hoje um ano que partiste, avó, e a cozinha ainda cheira a canela.»
Resolução:
- Quem fala dirige-se à avó («partiste», «avó»): é um desabafo pessoal.
- Não há factos para informar nem apelo ao leitor.
- O cheiro da canela é uma imagem concreta ligada à lembrança.
- O texto quer comunicar um sentimento: a saudade.
Resposta: A intenção é exprimir saudade e emocionar. Predomina a função emotiva. Verificação: o texto não manda fazer nada nem dá informação neutra; todo ele traduz um sentimento.
Erros frequentes
- Confundir intenção com tema. «Poupar água» pode ser o tema; «convencer o leitor a poupar água» é a intenção.
- Dizer «informar» para tudo. Todos os textos transmitem algo, mas só alguns têm por fim principal informar.
- Ler a ironia à letra e responder que o autor quer elogiar.
- Julgar apenas pelo título. Confirme com as marcas no corpo do texto.
- Não justificar com uma marca (imperativo, adjetivo de opinião, pergunta retórica).
- Confundir autor com narrador ou personagem. A intenção da personagem não é, necessariamente, a do autor.
- Ignorar a intenção secundária: um texto humorístico pode servir para criticar.
Exercícios propostos
1Exercício 1
Ligue cada frase à intenção mais provável: (a) «Lave as mãos antes de comer.» (b) «Choveu ontem durante duas horas no centro da cidade.» (c) «Era uma vez um leão que não sabia rugir.» (d) «Será que os governantes dormem?» Intenções: informar, aconselhar, entreter com uma história, criticar.
Ver solução
(a) Aconselhar (imperativo). (b) Informar (facto com tempo e lugar, sem opinião). (c) Entreter com uma história (fórmula de conto). (d) Criticar (pergunta retórica, que não espera resposta).
2Exercício 2
Leia o cartaz: «Não atire lixo para a rua. A cidade é de todos.» Qual é a intenção e que marcas a mostram?
Ver solução
Intenção: sensibilizar o leitor para um comportamento cívico (não sujar a rua). Marcas: imperativo na forma negativa («Não atire») e uma justificação coletiva («A cidade é de todos»). Predomina a função apelativa.
3Exercício 3
Distinga o tema da intenção: «Fumar causa doenças graves; por isso, diga não ao tabaco.»
Ver dica
Pergunte-se de que fala o texto e depois o que quer que o leitor faça.
Ver solução
Tema: os malefícios do tabaco. Intenção: alertar e convencer o leitor a não fumar. A marca está no imperativo final («diga não») e no conector «por isso», que liga o facto à recomendação.
4Exercício 4
Qual é a intenção? «O professor, sempre tão pontual, entrou na sala vinte minutos depois do toque e ainda se queixou de que os alunos estavam atrasados.»
Ver solução
A intenção é criticar, com ironia, a incoerência do professor. A expressão «sempre tão pontual» é contrariada pelos factos (vinte minutos de atraso), e «ainda se queixou» sublinha o contraste. Pode haver também uma intenção secundária de divertir.
5Exercício 5
Leia: «Já pensou no que pode fazer com vinte minutos por dia? Aprender dez palavras novas, ler duas páginas, preparar a lição de amanhã. Comece hoje. Quem se habitua a estudar um pouco todos os dias chega aos exames mais tranquilo.» (a) Qual é a intenção? (b) Indique duas marcas. (c) Qual é a função da linguagem predominante?
Ver dica
Repare no modo dos verbos e nas perguntas dirigidas ao leitor.
Ver solução
(a) Convencer e motivar o leitor a estudar um pouco todos os dias. (b) A pergunta dirigida ao leitor («Já pensou…?») e o imperativo («Comece hoje»); ainda o argumento final sobre os exames. (c) Função apelativa.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre intenção do autor e tema?
O tema responde a «de que fala o texto?»; a intenção responde a «para que foi escrito?». Dois textos sobre o mesmo tema podem ter intenções opostas: uma notícia que informa e um artigo que critica, por exemplo.
Um texto pode ter mais de uma intenção?
Sim. Há quase sempre uma intenção principal e, por vezes, uma secundária. Uma publicidade humorística diverte para vender; uma crónica irónica diverte para criticar. Nos testes, indique a principal e, se for pedido, a secundária.
Como sei que há ironia?
Quando o elogio não bate com os factos descritos, quando há exageros evidentes ou quando o contexto contradiz as palavras. Teste: se, lido à letra, o texto não faz sentido, pense na leitura irónica.
Existe um método mais rápido?
Use a pergunta «o que quer o autor que eu saiba, sinta ou faça?». Saber = informar; sentir = emocionar ou divertir; fazer = persuadir ou instruir. Depois procure uma marca no texto para a prova.
Resumo
- A intenção é o objetivo do autor ao escrever: informar, convencer, divertir, criticar, ensinar, alertar ou emocionar.
- Descobre-se pelo tipo de texto, pelo destinatário e pelas marcas de linguagem.
- Imperativo e segunda pessoa apontam para a função apelativa; adjetivos de opinião e perguntas retóricas apontam para convencer ou criticar.
- Um elogio contrariado pelos factos é sinal de ironia.
- Não confunda intenção com tema nem com opinião do leitor, e justifique com uma marca do texto.
Onde aprofundar
- O manual de Língua Portuguesa da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
- Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, para os modos verbais e as figuras de estilo.
- O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, para esclarecer terminologia sobre funções da linguagem.
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