Língua Portuguesa · 5.ª–12.ª classe

Como fazer uma redação dissertativa-argumentativa?

  • 11 min de leitura
  • 3 exemplos resolvidos
  • 5 exercícios com solução
  • Atualizado em

Resposta curta

Para fazer uma redação dissertativa-argumentativa, escolha uma tese (a sua posição sobre o tema), sustente-a com dois ou três argumentos apoiados em exemplos e organize o texto em introdução, desenvolvimento e conclusão. Planeie antes de escrever e, no fim, reveja a coesão, a ortografia e o limite de linhas pedido.

Quando se aplica

Este tipo de texto aparece quando o enunciado pede que tome posição sobre um assunto que admite opiniões diferentes (por exemplo, «Os alunos devem fazer trabalho voluntário?») e a justifique com razões. Não é uma narração (conta o que aconteceu) nem uma descrição (diz como algo é): aqui defende-se uma ideia.

A designação varia: fala-se também de texto de opinião, texto argumentativo ou dissertação. Confirme no manual da sua classe e com o professor o nome usado, a extensão exigida e os critérios de avaliação.

Pré-requisitos: saber construir parágrafos, usar conectores e pontuar com correção.

Os quatro elementos da argumentação

ElementoO que éExemplo
TemaO assunto propostoO telemóvel na escola
TeseA posição que você defendeO telemóvel deve ser permitido, só para estudar
ArgumentoUma razão que apoia a tese, com exemploPermite consultar um dicionário em segundos
Contra-argumentoUma objeção possível, com a sua resposta«Distrai»: sim, mas regras claras reduzem a distração

Método passo a passo

  1. Leia e delimite o tema. Sublinhe as palavras-chave e veja o que é pedido: tomar posição, discutir ou propor soluções. Responda ao tema proposto, não a outro parecido.
  2. Escolha a tese e escreva-a numa só frase. Se não a consegue resumir assim, ainda não a tem clara.
  3. Levante ideias e escolha os argumentos. Anote durante dois ou três minutos tudo o que lhe ocorre; fique com os dois ou três argumentos mais fortes e diferentes entre si (de exemplo, de causa e consequência, de comparação ou de valores, como a justiça ou a saúde).
  4. Faça o plano: introdução (tema e tese); parágrafo 1 (argumento 1 e exemplo); parágrafo 2 (argumento 2 e exemplo); parágrafo 3 (contra-argumento e resposta); conclusão.
  5. Escreva a introdução em três ou quatro frases: contexto, tema e tese.
  6. Escreva o desenvolvimento, com um argumento por parágrafo: enuncie o argumento, explique-o, dê um exemplo concreto e ligue-o à tese.
  7. Escreva a conclusão: retome a tese por outras palavras, resuma os argumentos e termine com uma proposta ou reflexão. Não acrescente argumentos novos.
  8. Reveja: responde ao tema? A tese está clara? Cada parágrafo tem um só argumento e um exemplo? Verificou ortografia, acentuação, pontuação e o número de linhas?

Conectores úteis: em primeiro lugar, além disso, por outro lado (ordenar e acrescentar); no entanto, contudo, embora (opor); porque, uma vez que (causa); por isso, por conseguinte (consequência); por exemplo (exemplificar); em suma, em conclusão (concluir).

Atenção

Não invente números nem citações para parecer mais convincente («segundo um estudo, 90%…»). Um exemplo observável, como uma situação da sua escola ou do seu bairro, convence mais do que uma estatística que não pode confirmar.

Exemplos resolvidos

Exemplo 1 — Do tema ao plano

Enunciado: Tema: «Os alunos devem fazer trabalho voluntário na comunidade?» Faça o plano de uma redação.

Resolução:

  1. Tese: «Os alunos devem fazer trabalho voluntário, porque aprendem a ser responsáveis e ajudam quem precisa.»
  2. Argumento 1: desenvolve a responsabilidade e o espírito de equipa. Exemplo: um grupo que limpa uma rua perto da escola.
  3. Argumento 2: aproxima a escola da comunidade. Exemplo: alunos mais velhos que ajudam crianças a ler.
  4. Contra-argumento: «tira tempo ao estudo». Resposta: poucas horas por semana, bem organizadas, não prejudicam o estudo.
  5. Conclusão: retomar a tese e propor que a escola organize estas atividades.

Resposta: plano com tese, dois argumentos com exemplo, contra-argumento e conclusão. Verificação: a tese cabe numa frase, cada argumento tem exemplo, a objeção tem resposta e a conclusão não traz ideias novas.

Exemplo 2 — Transformar uma opinião vazia em argumento

Enunciado: Melhore o parágrafo: «O voluntariado é bom. Toda a gente devia fazer voluntariado porque é muito bom e é importante para todos.»

Resolução:

  1. Diagnóstico: repete «bom» e «importante» sem dizer porquê. É um raciocínio circular («é bom porque é bom») e não tem exemplo.
  2. Escolha uma razão concreta: o voluntariado desenvolve a responsabilidade.
  3. Dê um exemplo observável: limpar uma rua do bairro, em grupo.
  4. Ligue à tese no final.

Resposta: «Os alunos devem fazer voluntariado, porque essa experiência ensina a responsabilidade. Quando um grupo se compromete a limpar uma rua do bairro, cada elemento tem uma tarefa e os colegas contam com ele; se falta, o trabalho fica por fazer. Assim, o aluno percebe que as suas decisões afetam os outros.» Verificação: há razão (porque), exemplo e ligação à tese.

Exemplo 3 — Nível de exame: redação completa

Enunciado: «Deve ser permitido o uso do telemóvel na sala de aula?» Escreva uma redação curta com tese, dois argumentos, contra-argumento e conclusão.

Resolução: siga o plano em cinco blocos e ligue os parágrafos com conectores.

Resposta:

Introdução. O telemóvel faz hoje parte da vida de quase todos os jovens e a escola não o pode ignorar. Deve ser permitido na sala de aula? Defendo que sim, mas só para estudar e com regras claras.

Argumento 1. Em primeiro lugar, o telemóvel é uma ferramenta de consulta rápida: se surge uma palavra desconhecida, o aluno procura-a num dicionário em segundos. Além disso, pode fotografar o esquema do quadro para rever em casa.

Argumento 2. Em segundo lugar, aprender a usá-lo com disciplina também é educação. Se a escola o proibir sempre, o aluno só o usará sem supervisão e não aprenderá a separar o momento de estudar do de se distrair.

Contra-argumento. É certo que há quem defenda a proibição, porque as mensagens e os jogos tiram a atenção. A objeção tem fundamento, mas o problema está no mau uso e não no aparelho: se o professor definir quando se pode usar, a distração diminui.

Conclusão. Em suma, o telemóvel deve ser permitido como instrumento de estudo, porque facilita a consulta e ensina a usar a tecnologia com responsabilidade. Cabe à escola definir as regras e aos alunos cumpri-las.

Verificação: a tese surge na introdução e regressa na conclusão por outras palavras; cada parágrafo defende uma só ideia; a objeção é reconhecida e respondida.

Erros frequentes

  • Não ter tese. Descrever o tema sem tomar posição dá um texto vago. Escreva a tese numa frase antes de redigir.
  • Argumentos sem exemplo ou circulares. «É importante porque é fundamental» não prova nada. Responda a «porquê?» e dê um caso concreto.
  • Fugir ao tema. Se o tema é o telemóvel na sala de aula, não escreva sobre os perigos da internet em geral.
  • Conclusão com ideias novas ou cópia da introdução. Retome a tese por outras palavras.
  • Estatísticas e citações inventadas. Só cite o que pode confirmar.
  • Um bloco único com todos os argumentos, ou frases soltas sem desenvolvimento. Um argumento por parágrafo.
  • Registo informal: gíria e abreviaturas de mensagens. Use frases completas e linguagem cuidada.
  • Ignorar o contra-argumento. Reconhecer a objeção e responder-lhe reforça a tese.

Exercícios propostos

Tente resolver primeiro no caderno; depois confira.

1Exercício 1

Qual destas opções é uma tese e não um simples tema? (a) As redes sociais e os jovens. (b) Vantagens e desvantagens do desporto escolar. (c) As redes sociais prejudicam o estudo quando usadas sem limites.

Ver dica

A tese afirma uma posição que alguém pode contestar.

Ver solução

(c). Afirma uma posição que pode ser defendida ou contestada. As opções (a) e (b) apenas nomeiam um assunto: são temas.

2Exercício 2

Ligue as frases com o conector mais adequado: (a) «Estudo todos os dias. Tenho bons resultados.» (b) «O transporte público é barato. Muitos alunos preferem ir a pé.»

Ver solução

(a) Consequência: «Estudo todos os dias, por isso tenho bons resultados.» (b) Oposição: «O transporte público é barato; no entanto, muitos alunos preferem ir a pé.»

3Exercício 3

Para a tese «A biblioteca da escola deve estar aberta durante o recreio», escreva dois argumentos diferentes, cada um com um exemplo.

Ver solução

Resposta possível. Argumento 1: dá acesso a livros a quem não os pode comprar; exemplo: um aluno sem livros em casa lê um romance no recreio. Argumento 2: cria o hábito de leitura; exemplo: quem lê dez minutos por dia acaba por pedir livros emprestados. Aceita-se qualquer par de argumentos distintos, com exemplo concreto e ligado à tese.

4Exercício 4

Indique o problema desta conclusão e reescreva-a: «Para terminar, a biblioteca deve estar aberta no recreio. Além disso, os livros são muito caros e o Estado devia gastar mais dinheiro.»

Ver dica

Uma conclusão não deve abrir uma discussão nova.

Ver solução

O problema é a ideia nova («os livros são caros… o Estado devia gastar mais») lançada no fim, sem desenvolvimento. Reescrita possível: «Em suma, a biblioteca aberta no recreio dá acesso aos livros e cria o hábito de leitura. Por isso, a escola deve mantê-la aberta nesse horário.»

5Exercício 5

Escreva a introdução (três frases: contexto, tema e tese) para o tema «O desporto escolar deve ser obrigatório?».

Ver solução

Possível: «O desporto faz parte da vida de muitos jovens, mas nem todos o praticam. Por isso se discute se o desporto escolar deve ser obrigatório. Penso que sim, porque contribui para a saúde e ensina a trabalhar em equipa.» Controlo: contexto (frase 1), tema (frase 2), tese com duas razões que serão desenvolvidas em dois parágrafos (frase 3).

Perguntas frequentes

Quando se usa este tipo de redação?

Sempre que o enunciado pede uma opinião justificada sobre um assunto debatível, em provas de Língua Portuguesa e em trabalhos escolares. Se pede para contar uma história ou descrever um lugar, o modelo é outro.

Existe um método mais rápido quando o tempo é pouco?

Sim, mas não dispensa o plano: escreva em cinco linhas a tese, os dois argumentos, a objeção e a ideia da conclusão. Escrever sem plano costuma gastar mais tempo, porque obriga a riscar e a reorganizar.

Posso escrever na primeira pessoa («eu penso que»)?

Depende das instruções do professor ou da prova. Algumas escolas aceitam «penso que» na introdução e na conclusão; outras preferem formas impessoais. Confirme o critério e mantenha-o em todo o texto.

Resumo

  • A redação dissertativa-argumentativa defende uma tese com argumentos e exemplos.
  • Estrutura: introdução (tema e tese), desenvolvimento (um argumento por parágrafo) e conclusão (retoma a tese, sem ideias novas).
  • Planeie antes de escrever: tema, tese, dois argumentos, objeção e conclusão.
  • Use conectores e evite estatísticas ou citações que não pode confirmar.
  • Reconheça o contra-argumento e responda-lhe.

Onde aprofundar

  • O manual de Língua Portuguesa da sua classe e o programa oficial (INIDE / Ministério da Educação de Angola) — confirme a edição em vigor.
  • Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, para a pontuação e a construção de frases.
  • O consultório Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e os dicionários Priberam e Houaiss, para dúvidas de ortografia e de vocabulário.

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